Raphael Saadiq sobre indicação ‘incrível’ ao Oscar por ‘Pecadores’ e saudades de D’Angelo

Escrito em 27/01/2026
BRIAN HIATT

A lenda do neo-soul nos conta sobre tentar celebrar uma indicação ao Oscar de Melhor Canção Original após um ano de perdas

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Raphael Saadiq

Entre as recordistas 16 indicações ao Oscar de Pecadores (2025) na semana passada estava uma menção para Melhor Canção Original, compartilhada pela lenda do neo-soul Raphael Saadiq e o compositor Ludwig Göransson. Para Saadiq, a indicação por “I Lied to You” (interpretada no filme por Miles Caton) vem após um ano brutal — ele perdeu seu irmão e cofundador do Tony! Toni! Toné!, D’Wayne Wiggins, assim como seu grande amigo e colaborador D’Angelo. Saadiq entrou num Zoom com a Rolling Stone EUA para falar sobre a canção, seu processo de luto e muito mais.

2025 foi um ano pesado para você, agora coroado por essa indicação. Parabéns, e como você está?

Ainda está me afetando muito. Tive um sonho com meu irmão hoje de manhã. Perder meu irmão e também meu grande amigo Michael Archer, D’Angelo — isso me deu energia. Às vezes é difícil para mim ouvir a música do D’Angelo. Quando você conhece alguém no começo da carreira e vocês são muito próximos e se entendem, você realmente sente falta dessa pessoa. Sinto que estou conversando com eles através do espírito e da energia. Trabalhar em tudo isso tem sido a parte mais doce, fazendo tudo fazer sentido — quem eu sou como homem, como amigo e como irmão. Foi isso que me preparou para trabalhar em Pecadores, para trabalhar com Ludwig e Ryan Coogler e Michael B. Jordan. Sempre fui um jogador de equipe.

Na versão final, “I Lied to You” incorpora muita da música negra que se seguiu, até o hip-hop, e a forma como é usada no filme é realmente poderosa. Mas sua versão era só blues, certo?

Ludwig adicionou aquela parte. Era uma canção de blues no início. [O diretor] Ryan Coogler e Ludwig me apresentaram a ideia e disseram: “Você consegue escrever a música agora?”. Eu e Ludwig pegamos guitarras e começamos a tocar. Nunca li o roteiro, então não sabia sobre o incêndio no bar de blues ou a relação pai e filho. Só tinha que me basear em Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Hubert Sumlin — o que eu sabia sobre blues. Não sabia por que disse “Take me in your arms tonight”. Simplesmente saiu. Eu era apenas um canal. Da forma como Ryan contou a história, pensei: “Essa é a minha vida”. Meu pai de verdade, Charlie Wiggins, cantava blues. Então, para mim, escrever uma canção de blues num filme foi natural.

Você escreveu a canção apenas alguns dias antes do início da produção, certo?

Sim, fui lá, eles me apresentaram a história e, de repente, estou sentado na frente da mesa cantando. Saí e nunca mais ouvi a música até Ryan me convidar para assistir no IMAX em Culver City. Foi tão lindamente feito. Estava entrelaçada por todo o filme.

Eles só disseram “Precisamos de uma canção de blues”?

Nada mais. Eles realmente confiaram em mim. Ryan me explicou sobre o tio [blueseiro] dele. As pessoas menosprezavam os músicos de blues, mas o blues era a igreja desses homens. Eles tinham má reputação. Isso se conectou comigo — no meu bairro, a igreja me dizia que eu iria para o inferno por cantar música secular. Meu pai disse: “A nota mi bemol no blues é o mesmo mi bemol que tocam na igreja”. Isso me libertou. Sempre tive isso na minha música. Nunca fiz uma canção que não tivesse algum tipo de blues. E isso me mostrou que respeitar a história de todos os tipos de música compensa. O fato de a Academia ter reconhecido uma canção de blues — ganhe, perca ou empate, isso é incrível para mim.

D’Angelo me disse que também ouviu essas coisas sobre “música do diabo” quando estava crescendo.

É por isso que éramos muito bons amigos. Nós dois crescemos com [os cantores de gospel] a Hawkins Family. Quando descobrimos que éramos ambos desse mesmo tecido — eu tinha um álbum deles no meu estúdio. D ficou no meu estúdio por um ano enquanto eu estava em turnê. Quando voltei, ele tinha pegado aquele álbum, ampliado e feito um pôster e emoldurado para mim. Ainda tenho. Quando as pessoas veem aquela foto, elas sabem de que tecido somos feitos.

Questlove falou sobre possível música póstuma de D’Angelo chegando. Você sabe alguma coisa sobre isso?

Não sei se ele tem o suficiente para fazer um álbum. Mas ele tinha muitas sessões de improviso que são melhores que álbuns. Se você tem Pino [Palladino], Questlove, [o guitarrista Isaiah Sharkey] e D — é tudo que você precisa. Se D está só murmurando e cantarolando, já é um disco. Então, espero que tenham algo que possam aproveitar.

O que vem a seguir de você?

Estou trabalhando em quatro projetos para o meu clube de vinil. Dois [álbuns ao vivo] e mais dois discos — um é uma banda que vai ter a vibe do Chic, com Sharkey fazendo o papel de Nile Rodgers. E depois meu próprio álbum baseado em algo do Reino Unido, de um certo período. Estou trabalhando duro.

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