Turnê de Bruce Springsteen é um renascimento americano que triunfa onde os democratas falham

Escrito em 13/05/2026
BRIAN HIATT

A primeira apresentação de Springsteen e da E Street Band no Madison Square Garden, em Nova York, é um lembrete contundente do poder de seu repertório — e de sua retórica também

O post Turnê de Bruce Springsteen é um renascimento americano que triunfa onde os democratas falham apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.

Tom Morello, Max Weinberg, Jake Clemons, Bruce Springsteen, Anthony Almonte, Steven Van Zandt e Garry W. Tallent no Madison Square Garden, em 11 de maio

Na noite desta segunda, 11, no Madison Square Garden, Bruce Springsteen cedeu um verso marcante do show ao vocalista convidado Tom Morello durante seu cover de “Clampdown“. “Deixe a fúria tomar conta”, gritou Morello, enquanto a E Street Band canalizava o espírito do The Clash de uma forma muito mais convincente do que qualquer um poderia imaginar quando os álbuns London Calling (1979) e The River (1980) estavam no topo das paradas. “A raiva pode ser poder.”

Como faz em todos os shows de sua turnê Land of Hope and Dreams, Springsteen juntou-se a ele com um coro na linha seguinte: “Você sabia que pode usá-lo?”

Quando Springsteen reuniu a E Street Band em 1999 para sua primeira turnê em mais de uma década, Morello estava ocupado tocando no Woodstock ’99 e no primeiro Coachella com o Rage Against the Machine, e ainda não tinha cantado uma nota sequer em público. Naquela época, Springsteen ainda não havia retomado as gravações com a banda, o que o deixou determinado a evitar a nostalgia. Então, ele evitou algumas de suas canções mais queridas, adicionou faixas inéditas aos shows e fez de um rearranjo com pegada metal de sua canção de 1995, “Youngstown“, um dos destaques. Ele também compôs uma nova música, “Land of Hope and Dreams“, que oferecia uma visão utópica de possibilidades para sua banda e sua nação.

Nos 27 anos que se seguiram, a E Street Band perdeu dois membros fundamentais, Clarence Clemons e Danny Federici, mas seguiu em frente. Springsteen compôs e gravou um catálogo inteiramente novo de canções do século XXI com eles, as melhores das quais se equiparam aos seus clássicos dos anos 70 e 80. Os membros remanescentes da E Street Band do século XX nesta turnê — Steve Van Zandt, Max Weinberg, Garry Tallent, Nils Lofgren e Roy Bittan — estão todos na casa dos setenta e, de alguma forma, tocam com a mesma intensidade de sempre em shows de quase três horas.

A E Street Band é tão versátil que a adição, antes surpreendente, de solos de guitarra insanos de Morello em “The Ghost of Tom Joad” agora parece simplesmente natural, um contraponto às igualmente grandiosas incursões de Lofgren em “Youngstown” e “Because the Night“. A banda está fazendo jus às promessas mais ousadas de seu líder, evocando um mundo onde “a música nunca acaba”, como canta Springsteen em “House of a Thousand Guitars“.

Já os Estados Unidos? Altos e baixos.

Ao contrário da maioria das turnês de Springsteen desde The Rising (2002), esta tem apenas uma música nova, o hino instantâneo de protesto “Streets of Minneapolis”, que imortaliza Renée Good e Alex Pretti, bem como os “capangas federais” que os assassinaram a tiros, levando multidões de baby boomers a gritar “fora ICE” em arenas por todo o país.

Mesmo sem um novo álbum, esta turnê é muito mais atual do que qualquer outro show de rock clássico que você possa citar (com exceção do sempre atual Bob Dylan). A memória da interpretação incorreta de “Born in the USA”, principalmente por Ronald Reagan a faixa, entendida por alguns como um hino patriótico, é na verdade uma crítica sobre o tratamento dos veteranos da Guerra do Vietnã e a desilusão americana está sempre viva para Springsteen. Então, ele criou um repertório e discursos que são implacavelmente claros em sua denúncia de Donald Trump e seu governo.

Se seu catálogo é perfeito para esse propósito, é apenas devido ao longo tempo que Springsteen vem lidando com questões que muitos políticos e artistas ignoraram. “Death to My Hometown”, “Youngstown”, “The Ghost of Tom Joad” e até mesmo “Murder Incorporated” (com uma surpresa solo de guitarra de Steve Van Zandt no Madison Square Garden) retratam as forças pré-Trump que trouxeram os EUA até aqui. Suas letras oferecem uma visão de uma nação desindustrializada, esvaziada e sem rede de proteção social, que inevitavelmente seria vulnerável à demagogia populista — aliás, o homem que inspirou o operário desempregado que narra “Youngstown” disse ao The New York Times que votou em Trump.

American Skin (41 Shots)”, por sua vez, escrita anos antes do movimento Black Lives Matter, aborda o racismo e sua relação com a violência e os abusos policiais. É também uma ocasião para alguns dos solos mais líricos, emotivos e naturais da carreira de Morello, começando com uma troca vibrante de riffs com o saxofonista Jake Clemons, que parece mais confiante do que nunca em seu papel. (Assim como nos anos 70, quando David Sancious e Ernest “Boom” Carter estavam na banda, a atual E Street Band é multirracial, com quase tantos músicos negros quanto brancos no palco.)

Os discursos da turnê, proferidos de forma quase idêntica todas as noites, não devem ser ignorados em um momento em que o Partido Democrata parece estar sem liderança, com seus principais dirigentes aparentemente sobrecarregados pela crescente lista de atrocidades de Trump. A mensagem de Springsteen é tão simples e clara que é chocante que políticos de fato pareçam incapazes de adotá-la. Ele se recusa a deixar que os horrores infligidos a Minnesota sejam esquecidos.

Ele nos lembra do desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), liderado por Elon Musk, e das inúmeras mortes no exterior que se seguiram.

“Não está mais nas manchetes”, disse Springsteen no Madison Square Garden, e em todas as etapas até agora, “mas está acontecendo agora. Pessoas estão morrendo.” Ele teve que acrescentar à lista de horrores conforme a turnê prossegue, mencionando agora o ataque da Suprema Corte à Lei dos Direitos de Voto e a perseguição a James Comey, acusado de obstrução e ameaça a Trump. No geral, ele revive uma ideia que surgiu com tanta frequência no primeiro mandato de Trump que, de alguma forma, se tornou uma piada para criticar os liberais: “Isso não é normal”.

“Para muitos, agora somos a América: uma nação imprudente, imprevisível, predatória e desonesta”, disse Springsteen. “Honestidade, honra, humildade, verdade, compaixão, humanidade, consideração, moralidade, verdadeira força e decência — não deixem que ninguém lhes diga que essas coisas não importam mais — elas importam sim… Então, juntem-se a nós e vamos lutar pela América que amamos.”

Desta vez, Springsteen está tão empolgado que o tom melancólico de sua última turnê se dissipou. Além da sempre deliciosa afronta à morte em “Wrecking Ball“, ele permitiu apenas um momento nesse sentido no Madison Square Garden, relembrando seu primeiro show em Nova York, ainda adolescente, no Cafe Wha. “O que eu quero dizer é: obrigado por uma vida inteira”, disse, provocando uma longa e notavelmente emocionada ovação.

O show começou com uma luz pairando sobre um espaço vazio atrás do pedestal do microfone, onde Springsteen finalmente entrou para seu discurso de abertura. Nos momentos que antecederam sua chegada, era difícil não pensar naquele vazio e temer o dia em que Bruce Springsteen não estará mais aqui para preenchê-lo.

+++ LEIA MAIS: U2 grava clipe de música nova em cima de ônibus no México; assista

O post Turnê de Bruce Springsteen é um renascimento americano que triunfa onde os democratas falham apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.

.