Iron Maiden oferece a SP um bom show de contrastes em noite de eleição

Escrito em 26/10/2026
Igor Miranda (@igormirandasite)

Sem conflitos na plateia durante apuração de votos para presidente, apresentação comemorativa de 50 anos aliou algumas das canções mais diretas da banda a épicos ‘fora da caixinha’

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Bruce Dickinson durante show do Iron Maiden em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

Por volta das 21h10 deste domingo, 25, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considerou Luiz Inácio Lula da Silva reeleito presidente da República, num resultado apertado e marcado por uma virada ao longo da noite. Paralelamente, o Iron Maiden estava nos momentos iniciais do primeiro de dois shows no Nubank Parque, em São Paulo, como parte da passagem nacional de sua turnê de 50º aniversário, Run for Your Lives. O estádio recebe a banda novamente na terça-feira, 27, com Curitiba na rota desta quarta, 28.

Apesar do receio e do clima de tensão no ar — com um número de pessoas além do normal olhando seus celulares antes do início da performance às 20h50 —, não houve qualquer episódio notório, ao menos na pista premium, de brigas ou discussões acaloradas pela situação. Seria o Maiden a solução para a (suposta) polarização política do país? Óbvio que não. Ainda assim, o grupo ofereceu pouco mais de duas horas de distração, por vezes reflexiva, para 50 mil fãs que esgotaram os ingressos disponíveis muito antes de se ligarem que o show ocorreria, justamente, no dia do segundo turno das eleições.

Iron Maiden durante show em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Iron Maiden durante show em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

Alter Bridge

O clima talvez estivesse um pouco mais tenso durante o show de abertura realizado pelo Alter Bridge entre 19h10 e pouco depois das 20h. A plateia ainda parecia um pouco dispersa, embora não tenha desprezado o experiente grupo americano de metal formado por Myles Kennedy (voz e guitarra), Mark Tremonti (guitarra), Brian Marshall (baixo) e Scott Phillips (bateria), os três últimos oriundos do Creed. Com o desenrolar de seu repertório de oito músicas — deixando seus maiores sucessos concentrados ao fim —, o quarteto conquistou paulatinamente a parcela mais atenta da plateia.

A ligeira apatia inicial do público é explicada, também, pelo modus operandi do Alter Bridge. Kennedy é contido e pouco interativo como frontman e parece mais concentrado em manter sob controle a afinação, a guitarra (inclusive solos) e cada detalhe de sua parte. É um grupo de extrema precisão técnica, mas que opta por uma abordagem menos característica de “show de arena”. Tem seus prós e contras.

Myles Kennedy e Mark Tremonti durante show do Alter Bridge em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Myles Kennedy e Mark Tremonti durante show do Alter Bridge em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

“Silent Divide”, única faixa do novo álbum homônimo de 2026 a aparecer no set, abriu o show com peso e andamento cadenciado. O riff tinha algo de “Sabbath Bloody Sabbath”, mas a resposta da plateia cresceu mais nos trechos pesados do que na música como um todo. “Addicted to Pain” chegou com mais impacto e mostrou melhor a capacidade do Alter Bridge de combinar densidade, precisão e melodias interessantes. Antes de “Cry of Achilles” e seu groove menos previsível, Kennedy admitiu, em português, que passara o dia pensando para si mesmo que não podia errar ao abrir para o Maiden. Talvez isso ajude a explicar sua abordagem meticulosa no palco.

“Fortress”, recuperada de um período de quase uma década ausente dos repertórios do grupo até o início da turnê atual, abriu espaço para uma construção longa, progressiva e menos imediata, enquanto “Silver Tongue” trouxe um dos riffs mais fortes do catálogo recente. Mas convincente, mesmo, foi a trinca final. “Metalingus”, canção que alcançou público além do circuito rocker por sua associação à WWE, sintetizou o que melhor funciona no Alter Bridge: efetividade ao cativar o público em meio aos riffs pesados e capricho técnico. “Blackbird” ofereceu o contraponto mais emotivo, com celulares acesos e solos inspirados de Kennedy e Tremonti. “Isolation” fechou o set em torno de um refrão particularmente pegajoso, reforçado pelos vocais de apoio de Mark — recurso que merecia ser mais explorado, inclusive para dar variedade ao desenho agudo das vozes.

Myles Kennedy durante show do Alter Bridge em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Myles Kennedy durante show do Alter Bridge em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

Setlist — Alter Bridge em São Paulo:

1. Silent Divide
2. Addicted to Pain
3. Cry of Achilles
4. Fortress
5. Silver Tongue
6. Metalingus
7. Blackbird
8. Isolation

Iron Maiden

Como o Alter Bridge, o Iron Maiden demorou um pouco a engrenar com seu show. Não pela escolha de músicas, já que acertaram muito com as quatro canções da era Paul Di’Anno selecionadas para o início de um espetáculo celebrativo de seus nove primeiros álbuns de estúdio (exceção feita a No Prayer for the Dying, 1990). Em “Murders in the Rue Morgue”, já se notava um grupo tocando em velocidade ligeiramente abaixo da gravação original em estúdio, além de um Bruce Dickinson ainda em busca de sua melhor versão vocal. Tais sensações continuaram com a clássica “Wrathchild” e a poderosa “Killers”, trazendo a primeira aparição do mascote Eddie no palco. Um início de inclinação ligeiramente punk que, infelizmente, não foi traduzido na execução.

É equivocado culpar Simon Dawson, substituto de Nicko McBrain após este se aposentar dos palcos no fim de 2024, pois tudo indica que o baterista toca no ritmo solicitado pelos demais integrantes. Ainda que simplifique algumas viradas e abordagens e soe apenas correto para uma banda tão espetacular, Dawson fez sua parte do jeito que certamente lhe pediram. Surpreende a desaceleração, pois, tecnicamente, nenhum dos demais integrantes do instrumental teve queda em sua performance. O trio de guitarristas composto por Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers continua afiadíssimo, assim como o baixo cavalgado de Steve Harris, um poço de energia em cima do palco.

Simon Dawson durante show do Iron Maiden em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Simon Dawson durante show do Iron Maiden em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

A partir de “Phantom of the Opera”, mais cadenciada e cheia de mudanças, tudo começou a se encaixar. Dickinson, um dos maiores frontmen da história do heavy metal, soou mais aquecido em termos vocais — já que, em postura corporal no palco, encontrava-se em estágio ideal desde os primeiros segundos do set. Na canção seguinte, “The Number of the Beast” — engrandecida pela forte pirotecnia e solo revigorado com wah de Smith —, o cantor enterrou qualquer eventual preocupação com sua performance. Mostrou o quão (positivamente) absurda sua performance ainda é aos 68 anos de idade e uma década após ter superado um câncer na língua.

A plateia reconhece seus esforços. Entre “Killers” e “Phantom”, disse que o Brasil tem um lugar especial no coração da banda — fato, dado que eles já realizaram mais de 40 shows no país até hoje — e recebeu como resposta um grito por seu nome tão duradouro a ponto de ele precisar interromper o discurso, sorrindo diante do coro.

Com “Infinite Dreams”, sexta música do repertório e um resgate recente após 38 anos de ausência nas turnês, o show passou a alternar de modo mais claro entre épicos e sons mais diretos. Antes dela, uma fala espontânea de Dickinson, mas, posicionamento à parte, coerente com o momento de eleições: “no Brasil, esse país incrível, todos precisam poder ter sonhos”. Se essa canção em si não despertou tantas reações para além do público mais dedicado, a próxima, “Powerslave”, com direito a Bruce utilizar uma curiosa máscara, rendeu um dos momentos de destaque da noite.

O aparato visual ajudou a mudar a escala da experiência. Run for Your Lives é a primeira turnê em que o Iron Maiden faz uso de um grande telão digital ao fundo, em vez de seus clássicos cenários pintados. Na mencionada faixa-título do álbum de 1984, a imagem imponente de Eddie faraó sob diferentes climas e enquadramentos conferiu um tom ainda mais dramático. Em “Rime of the Ancient Mariner”, outro épico executado após a quase hard rocker “2 Minutes to Midnight”, a enorme tela ofereceu uma narrativa quase cinematográfica, com efeitos sonoros e imagens sincronizados à longa passagem instrumental.

Dave Murray durante show do Iron Maiden em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Dave Murray durante show do Iron Maiden em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

“Rime”, aliás, começou com um momento de descontração. Dickinson anunciou que era hora da cachaça, bebeu e “descobriu” que o copo continha água. “Oh, f*ck, é água”, reagiu, antes de brincar que beber cachaça demais poderia fazer alguém enxergar um albatroz no céu. Nada é por acaso: a faixa do álbum Powerslave (1984) adapta o poema de Samuel Taylor Coleridge sobre um marinheiro que mata um albatroz sem motivo e desencadeia uma maldição no mar.

Outro épico, a superprogressiva “Seventh Son of a Seventh Son”, surgiu após a catártica “Run to the Hills” — que, como outras composições do Maiden, carrega teor político ao versar sobre invasão, massacre e colonização dos povos indígenas. Mas a partir daí, o repertório entra numa sequência de seis clássicos incontestáveis que valem, por si só, o ingresso pago:

  • “The Trooper”, que trouxe Eddie novamente, agora vestido como soldado numa batalha cênica de espadas, enquanto Dickinson empunhava as bandeiras do Reino Unido e, em meio aos solos, do Brasil;
  • “Hallowed Be Thy Name”, interpretação mais teatral do vocalista, que inicia e conclui dentro de uma cela;
  • “Iron Maiden”, o clássico encerramento (de set regular ou de bis, neste caso a primeira opção), novamente retomando a sina de desacelerar canções da era Paul Di’Anno;
  • “Aces High”, abertura do bis, tendo Dickinson, como habitual, em figurino de piloto de caça;
  • “Fear of the Dark”, certamente o auge da resposta popular, com todo o estádio cantando, pulando e até se abraçando em comunhão;
  • “Wasted Years”, mantida como encerramento após ocupar tal função na turnê anterior The Future Past, com ganchos melódicos irresistíveis.
Adrian Smith durante show do Iron Maiden em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Adrian Smith durante show do Iron Maiden em São Paulo em 2026 (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

Fã de Iron Maiden que se preze já debateu, pelo menos uma vez, sobre o momento em que o grupo deve se aposentar. Após mais de 50 anos, está nítido que não chegou a hora. Em que pese a possibilidade desperdiçada de ter escolhido um baterista mais hábil, a chegada de Simon Dawson para a continuidade das atividades só reforça que o Maiden tem plena consciência de que ainda há lenha para se queimar: seja em escolhas surpreendentes de repertório oriundas de um catálogo campeão, novidades visuais ou qualidade ainda elevada de performance.

Setlist — Iron Maiden em São Paulo:

1. The Ides of March (intro/som mecânico) + Murders in the Rue Morgue
2. Wrathchild
3. Killers
4. Phantom of the Opera
5. The Number of the Beast
6. Infinite Dreams
7. Powerslave
8. 2 Minutes to Midnight
9. Rime of the Ancient Mariner
10. Run to the Hills
11. Seventh Son of a Seventh Son
12. The Trooper
13. Hallowed Be Thy Name
14. Iron Maiden
Bis:
15. Aces High
16. Fear of the Dark
17. Wasted Years

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