Korn lava a alma dos fãs e deles próprios com show catártico em SP

Escrito em 17/05/2026
Igor Miranda (@igormirandasite)

Lendária banda de nu metal executou seus maiores clássicos com precisão ímpar diante de público que lotou o Allianz Parque, chuva à parte, correspondeu aos esforços

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Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

O relógio já marcava 22h10, com cerca de 35 minutos de show já passados, quando o Korn deu sua primeira pausa totalmente sem som. Os 50 mil fãs que esgotaram os ingressos no Allianz Parque, em São Paulo, no último sábado, 16, até estranharam: até então, todos os intervalos entre músicas contaram com algum barulho ou ruído. Aquele seria, também, o momento da comunicação inaugural entre o vocalista Jonathan Davis e a plateia — que estava na palma de sua mão.

Após perguntar se os presentes estavam se divertindo, o cantor… pediu desculpas. Mesmo. “Lamentamos por termos demorado tanto para voltar”, disse, ciente de que a visita anterior ao país, para apresentações de porte bem menor, havia ocorrido nove anos atrás, em 2017. “Prometemos que não vamos demorar tanto da próxima vez”, completou, antes de enfatizar que o grupo está “preso em estúdio fazendo um disco há 5 anos” — na verdade, um pouco menos do que isso, pois o trabalho mais recente, Requiem, saiu em 2022 — e introduzir a boa, mas não excelente “Reward the Scars”, seu novo single e nona música do set.

Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

A noite de sábado, 16, reforça que o Korn parece viver um período de exceção. Como citado, seus shows no Brasil em 2017 se deram em arenas sensivelmente menores, para públicos entre 4 e 8 mil pessoas. Pouco ocorreu para justificar seu “upgrade” para atração de estádio, inclusive fora do país: pandemia, interesse renovado em música ao vivo e, especialmente, um revival do nu metal que também beneficiou as demais bandas do subgênero, mas nada específico por parte da banda. Além disso, “Reward the Scars”, usada na trilha de uma expansão do game Diablo IV, põe fim ao maior hiato do grupo sem material inédito: eles nunca haviam passado mais de três anos sem disponibilizar novo álbum ou canção.

Mas todos estão gostando deste período de exceção. Até mesmo Davis, que, nos raros intervalos sem som no Allianz, olhava para a plateia um tanto incrédulo. “Nunca iremos nos esquecer de vocês”, afirmou, também antes da nova faixa, em um momento que soou sincero.

O show do Korn no Allianz, data única no Brasil e última de uma sequência de seis na América do Sul — México vem na sequência —, foi iniciado exatamente às 21h33, quase quatro horas após a primeira banda de abertura, Black Pantera, ter se apresentado. Seven Hours After Violet e Spiritbox também tocaram e serão abordados em outro texto. Como não poderia deixar de ser, “Blind”, faixa que inicia o álbum de estreia lançado em 1994, também abriu o repertório, com sua introdução climática, queda de cortinas e catarse coletiva provocada por Jonathan, os guitarristas Brian “Head” Welch e James “Munky” Shaffer, o baterista Ray Luzier e o baixista convidado Ra Díaz (substituto do afastado Reginald “Fieldy” Arvizu).

A partir daí, o que se viu até a mencionada “Reward the Scars” foi um desfile de clássicos oferecido apenas por bandas com porte de estádio. Até o interlúdio “Twist”, com suas vocalizações algaraviada, foi cantado por uma parcela dos fãs — sabe-se lá como. Destacaram-se a pesada “Here to Stay”, favorita de Davis para shows e ambiente para os primeiros e raros sinalizadores da noite; a dançante “Got the Life”, durante a qual iniciou-se uma garoa que evoluiria para uma forte chuva; “Did My Time”, parte da trilha do filme Tomb Raider: A Origem da Vida e única da trajetória deles a entrar no top 40 americano; e a experimental “Shoots and Ladders”, trazendo a clássica gaita de foles de Jonathan e um trecho final de “One”, som histórico do Metallica coverizado pelo Korn em 2003.

Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

Na segunda etapa do set de 19 músicas, as reações da plateia passaram a oscilar um pouco mais, seja pela escolha de algumas canções ou pelo dilúvio que acometeu o Allianz até cessar, curiosamente, pouco após o fim do show. Precedendo o bis, faixas que chegaram a sair como singles no período de “auge” — como o hit groovado “Twisted Transistor”, a também clássica “Somebody Someone” e a porreta “Y’All Want a Single” (com seus 87 usos da palavra “f*ck”) — dividiram espaço com canções igualmente boas, todavia menos celebradas pelo público geral. Casos da intensa e relativamente recente “Cold” (única composição dos últimos 20 anos além de “Reward the Scars” a figurar no set), “Dirty” com um andamento que seria o mais próximo a ser ouvido de uma balada e “Ball Tongue”, talvez a que mais tenha esfriado.

Já no bis em si, novo desfile de clássicos. “4U”, quase um interlúdio, antecedeu a traumática “Falling Away from Me”, a divertida “A.D.I.D.A.S.” e o hit máximo “Freak on a Leash”, com disparo de serpentinas à plateia. Foi, aliás, um show econômico no que diz respeito a uso de pirotecnia, fumaça e afins: o foco estava no som, grave e cristalino como deve ser, e na climática iluminação, que compôs o espetáculo junto de uma estrutura metálica em cinco blocos posicionada no topo do palco.

Musicalmente, o Korn soa, ao vivo, muito próximo das gravações em estúdio. A timbragem das guitarras é emulada com perfeição e a performance de Ra Díaz se assemelha muito à de Fieldy, embora seja ligeiramente menos aguda e percussiva. Ray Luzier é monstruosamente habilidoso na bateria, ainda que, vez ou outra, falte o swing característico do membro original David Silveria. A única variável reside em Jonathan, que, a depender da canção — a exemplo de “Coming Undone” ou o refrão de “A.D.I.D.A.S.” —, perde um pouco o fôlego. Perfeitamente natural para um vocalista de 55 anos, com excessos e abusos em parte deste tempo, e em nada compromete a avaliação geral.

A construção de repertório se mostrou sólida, pois percorre os principais momentos do catálogo. Sempre haverá ausências — no caso de sábado, 16, faixas como “Right Now”, “Good God”, “Dead Bodies Everywhere” e “Faget” cairiam bem, assim como incluir ao menos uma de Requiem (2022) —, mas se a ideia é oferecer um show de 90 minutos, não dava para ter feito muito diferente. Nem mesmo seria possível cumprir a promessa feita por Munky, à Rolling Stone Brasil, de incluir lados B como “No Place to Hide”, “Lies”, “Need To” ou “Word Up” (cover do Cameo). O disco de estreia de 1994 e Issues (1999) são os mais representados, com quatro músicas cada, enquanto o best-seller Follow the Leader (1998), curiosamente, contribui apenas com “Freak on a Leash” e “Got the Life”. Untouchables (2002), favorito de Davis e Munky, traz somente “Here to Stay”.

Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

Como outras bandas do nu metal e até de diferentes subgêneros do rock — a exemplo do Oasis —, o Korn, enfim e merecidamente, virou atração de grande porte no Brasil. Com o perdão do trocadilho meteorológico, a performance de sábado, 16, lavou a alma dos fãs e da própria banda. Que a chuva dê uma trégua na próxima visita, pois, ao que tudo indica, só poderá ser em estádio.

Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Korn em São Paulo (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

Korn — setlist em São Paulo:

1. Blind
2. Twist
3. Here to Stay
4. Got the Life
5. Clown
6. Did My Time
7. Am I Going Crazy + Shoots and Ladders
8. Coming Undone
9. Reward the Scars
10. Cold
11. Twisted Transistor
12. Dirty
13. Somebody Someone
14. Ball Tongue
15. Y’All Want a Single
Bis:
16. 4 U
17. Falling Away From Me
18. A.D.I.D.A.S.
19. Freak on a Leash

Rolling Stone Brasil: revista especial com Korn

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