Brent Faiyaz, o namorado tóxico, está mais apaixonado que nunca em ‘ICON’

Escrito em 20/02/2026
Kadu Soares (@soareskaa)

Produzido por Raphael Saadiq, novo álbum mostra cantor mais vulnerável e menos autodestrutivo — e funciona melhor assim

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Brent Faiyaz

Na noite de 18 de setembro de 2025, Brent Faiyaz mandou mensagem pro time dele cancelando o lançamento de ICON que estava marcado pra acontecer em menos de 24 horas. Sem aviso prévio ou explicação pública. Tudo estava pronto, só faltava apertar o “ENVIAR”. Singles já tinham sido lançados — “Tony Soprano” e “Peter Pan” —, capa já estava divulgada, havia painéis de divulgação em toda parte. E então: nada aconteceu. Cinco meses depois, na véspera do Valentine’s Day de 2026, o álbum finalmente chegou, mas não era o mesmo álbum. Aqueles dois singles sumiram da tracklist e deram espaço à dez faixas produzidas por Raphael Saadiq, sem nenhuma participação e com um Brent Faiyaz bem diferente, mais vulnerável e apaixonado, distante da imagem tóxica que o consolidou.

Desde Sonder Son (2017), passando por Fuck the World (2020) e Wasteland (2022), Faiyaz vinha construindo carreira em cima de persona muito específica — o namorado que admite ser terrível mas não pede desculpas por isso. E funcionou extraordinariamente bem, consolidando ele como voz definitiva do R&B contemporâneo pra geração que cresce desconfiando de promessas eternas. Ele encontrou nicho lucrativo sendo honesto sobre desonestidade, e ninguém questionava se aquilo era tudo que ele tinha pra dizer. Por que questionaria? Estava funcionando. Mas talvez seja exatamente por isso que ele descartou aquela primeira versão de ICON horas antes do lançamento. Talvez tenha percebido que continuar repetindo a mesma fórmula — por mais bem-sucedida que fosse — não era mais interessante pra ele. A mudança é tão grande que até a sonoridade foi afetada.

A primeira grande diferença está na produção, que alcança outro patamar de sofisticação com Raphael Saadiq como produtor executivo. Saadiq, que moldou o som de D’Angelo, Solange, Erykah Badu, trouxe refinamento que eleva cada faixa sem sufocar a voz de Faiyaz, e isso fica claro desde a abertura instrumental “White Noise”, dois minutos de cordas orquestrais estabelecendo clima cinematográfico antes de qualquer palavra ser dita. Quando “Wrong Faces” finalmente traz a primeira performance vocal, a produção minimalista — bateria seca, guitarra sedosa — deixa espaço pra Brent cantar sobre mulher que procura amor nos lugares errados enquanto ele oferece estabilidade, e a economia de elementos faz cada nota importar. Ao longo do álbum, Dpat e Jordan Ware co-produzem ao lado de Saadiq, ajudando o projeto a manter a coesão. Trinta e quatro minutos, dez músicas, tudo conectado por fio invisível que mantém clima sem virar monotonia.

A antiga versão de ICON, que incluía “Tony Soprano” e “Peter Pan”, provavelmente continha o velho Faiyaz: cínico, desprendido e superado, mas o Brent que aparece na versão lançada é completamente diferente. Ele está desesperado pra ficar, admitindo dependência emocional sem transformar isso em pose de machão ferido. “Have To”, único single da versão original que sobreviveu ao cancelamento, tem ele dizendo literalmente que vai se empacotar e mandar pelos correios se for necessário pra chegar até ela, comparando a mulher a droga da qual ele depende pra sobreviver tempestades. E em “Butterflies”, que começa etérea e sonhadora antes de explodir em urgência no meio da música, Brent pergunta repetidamente se ela sente o mesmo que ele, vocalizando insegurança que nos álbuns anteriores ele teria escondido atrás de arrogância.

Essa vulnerabilidade coexiste com momentos onde Faiyaz ainda não conseguiu abandonar completamente os padrões antigos, e a tensão entre os dois impulsos é o que torna ICON mais interessante que se fosse apenas disco de amor incondicional. Em “Strangers”, ele canta sobre mulher que “era pra ter mudado de sobrenome” mas logo depois se recusa a explicar o que deu errado. A faixa termina com uma lista de interlúdio, elencando metas de automelhoria (seja honesto, coma saudável, leia livros, dê sem esperar nada). E “Four Seasons”, com pianos e arranjos que se assemelha a um filme clássico da Disney, mistura dinheiro com ciúme no mesmo verso: ele canta sobre relógios e carros que comprou, depois cobra “você tinha um trabalho, então qual é seu trabalho?”, admite no verso seguinte.

Musicalmente, ICON também mostra Faiyaz mais disposto a experimentar fora da zona de conforto. “Other Side” é homenagem descarada a Michael Jackson — fluência de guitarra, bateria que balança, Brent brincando com registros vocais diferentes e falsete que derrete — e funciona. Ele geralmente prefere hip hop e R&B mais pesados, então ver ele mergulhar em pop com essa confiança é refrescante. Já “World Is Yours” volta pro território clássico dele, manipulação vocal moderada e acordes de teclado que veteranos da discografia vão reconhecer imediatamente.

As duas últimas faixas do álbum, “Pure Fantasy” e “Vanilla Sky”, são onde Faiyaz finalmente faz as perguntas que o resto do disco evitou. A primeira mistura vocabulário religioso com romântico de forma tão deliberada que fica impossível separar — ele alterna entre louvar Deus e louvar a namorada até as duas coisas virarem uma só. Já a segunda, que fecha o álbum, finalmente pergunta algo direto: “O que é felicidade pra você?”, seguido de “Isso é espaço seguro pra eu ser honesto?”. Mas, típico de Brent, a música volta pro refrão antes de esperar resposta. Ele faz a pergunta certa, mas não aguenta o silêncio que vem depois.

O disco ainda ganhou versão deluxe dias depois chamada Director’s Cut, com duas faixas adicionais que expandem a narrativa sem quebrar o fluxo. “Full Moon” é a mais interessante delas, com a música que virou sample de “Stay Here 4 Life” em Don’t Be Dumb do A$AP Rocky, mas aqui Faiyaz entrega a versão completa da música, e ela é tão bonita quanto prometia ser naquele fragmento.

ICON tem limitações claras. Ainda cai em clichês de R&B — metáforas de tempestade, promessas que soam mais como contratos que ninguém leu as entrelinhas, devoção que às vezes parece mais possessão disfarçada. E trinta e quatro minutos, apesar de serem exatamente o tamanho certo pra não cansar, deixam gosto de quero mais justamente porque as melhores faixas (especialmente o trio final) são tão fortes que seria bom ter mais duas no mesmo nível. A ausência total de participações também é outra escolha arriscada que deu certo, Faiyaz carrega o álbum sozinho, mas embora ele tenha talento pra isso, um ou dois contrastes vocais poderiam ter quebrado monotonia tonal em alguns momentos.

Mas essas falhas importam menos que a conquista central: Brent Faiyaz finalmente evoluiu pra além do personagem de namorado terrível que ele vinha interpretando desde 2017. Ele ainda não é namorado perfeito — talvez nunca seja, e as contradições em ICON deixam isso claro —, mas pelo menos agora ele tá tentando. Tá admitindo vulnerabilidade. Tá fazendo perguntas difíceis mesmo sabendo que não tem resposta. E ouvir esse processo, ouvir ele tropeçar entre devoção genuína e velhos hábitos possessivos, faz o álbum soar humano de forma que os trabalhos anteriores nunca conseguiram. Raphael Saadiq poliu o som até brilhar. Brent poliu a alma o suficiente pra deixar algumas rachaduras aparecerem. E o resultado é álbum de R&B que merece estar na conversa dos melhores de 2026, não porque seja perfeito, mas porque finalmente mostra artista disposto a crescer.

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