Angra faz história com show de 9 integrantes no Bangers; saiba como foi

Escrito em 27/04/2026
Igor Miranda (@igormirandasite)

Banda se reuniu com ex-integrantes de formação celebrada, introduziu novo vocalista e despediu-se do então titular com apresentação emocionante e reflexiva sobre seu legado

O post Angra faz história com show de 9 integrantes no Bangers; saiba como foi apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.

Angra no Bangers Open Air 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

A expressão “fazer história” está banalizada, é verdade, mas não há outra forma além desta para definir o que foi feito pelo Angra no último domingo, 26. Em uma movimentação raríssima — talvez inédita —, uma banda brasileira serviu como atração principal para um festival de grande porte como o Bangers Open Air, realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Para gerar tamanho interesse, o grupo, que havia se apresentado no mesmo evento (outrora chamado Summer Breeze Brasil) em 2024 durante o meio da tarde, preparou um show especial a convite da própria organização. Os instrumentistas Rafael Bittencourt (guitarra), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) promoveram a despedida do vocalista Fabio Lione, a estreia do também cantor Alirio Netto e uma reunião com três antigos integrantes: Edu Falaschi (voz), Kiko Loureiro (guitarra) e Aquiles Priester (bateria).

Contemplou-se, assim, passado, presente e futuro, num espetáculo de duas horas e 15 minutos dividido em dois atos além de bis. No primeiro, Alirio e Fabio se revezaram no microfone principal, mas sem dividir o palco, junto dos integrantes atuais. No segundo, a formação conhecida como “nova era” — composta por Falaschi, Bittencourt, Loureiro, Andreoli e Priester — celebrou o 25º aniversário do álbum Rebirth (2001) e ainda tocou canções dos outros dois discos deste período. No terceiro e último, houve presença de mais de um cantor e de três guitarristas, com direito a homenagear Andre com “Silence and Distance” (trazendo imagens dele no telão e gravações de sua voz) e encerrar com todos juntos ao som da clássica “Carry On”. O setlist ao fim da página inclui mais detalhes.

Angra no Bangers Open Air 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)
Angra no Bangers Open Air 2026 (Foto: Leca Suzuki @lecasuzukiphoto)

O instrumental, como habitual, mostrou-se impecável. A competência de todos é amplamente conhecida, a ponto de cada um ali ter se estabelecido como referência em sua área. Ex-membros como o diferenciado Kiko Loureiro e a “máquina” Aquiles Priester perderam nada de sua técnica e os atuais preservam suas características mais adoradas. As variáveis residiram nos vocalistas. A saber:

— Alirio Netto, efetivado no microfone principal do Angra após o fim do “hiato mandrake” que não durou um ano, passou no teste — se é que havia alguma avaliação em andamento, pois o artista catarinense de 48 anos tem larga experiência no rock e heavy metal, bem como em musicais. As canções que interpretou foram da fase Andre Matos (vocalista original falecido em 2019) e, mesmo com o alto nível de dificuldade, obteve êxito. Não é surpresa, visto que já havia substituído Matos em outra de suas bandas, Shaman. Ainda assim, impressionou em momentos como a abertura “Nothing to Say” e a versão para “Wuthering Heights” (Kate Bush). Também atraiu atenção por sua presença de palco (ainda que vez ou outra possa ter exagerado um pouco na dose) e visual composto por coque samurai, jaqueta de couro e kilt, vestimenta similar a uma saia;

— Fabio Lione, em sua despedida, acabou apagado por toda a ocasião e, mesmo com seu poderio vocal e carisma de frontman clássico, pouco empolgou. Considerando as duas partes de “Tide of Changes” como uma música só, o italiano de 52 anos ficou a cargo apenas de três canções, uma delas da fase Andre Matos (“Lisbon”), e entrou como convidado de “Carry On” junto de Alirio e Edu. Por um lado, pareceu uma despedida pobre para o cantor que esteve por mais tempo na formação (14 anos); por outro, soou correto, seja porque havia outros pontos mais chamativos (estreia de Netto e reunião com Falaschi) ou por seus três álbuns gravados junto ao grupo terem dividido a opinião de muitos fãs;

— Edu Falaschi, subindo ao palco com a banda pela primeira vez em 15 anos, protagonizou a maior parte dos momentos emocionantes. Tendo em vista a quantidade de conflitos (agora solucionados) com os colegas remanescentes, seu retorno para uma ocasião como essa era considerado extremamente improvável até pouco tempo atrás. O artista, agora bem estabelecido em carreira solo, ativou a nostalgia dos fãs por meio de sua presença facilmente reconhecível e pela interpretação única de canções como “Nova Era”, “Heroes of Sand” (durante a qual deu um abraço comovente em Rafael Bittencourt), “Bleeding Heart” (regravada pelo Calcinha Preta, popularizada em português na região Nordeste e recebida com um mar de luzes na plateia) e “Rebirth”. E não há muito mais o que dizer sobre seu desgaste vocal: a performance atual é satisfatória dentro das limitações impostas pelos problemas de saúde e, a essa altura, ninguém além de críticos virtuais liga para isso.

As escolhas de setlist também se provaram, majoritariamente, um acerto. Faltou praticamente nada. Sete dos dez álbuns foram representados; as exceções residiram em Aqua (2010), despedida de Falaschi; e Secret Garden (2014) e Ømni (2018), os dois primeiros com Lione. Do cantor italiano, talvez fosse mais interessante incluir faixas mais testadas ao vivo, a exemplo de “Newborn Me” ou “Black Widow’s Web”. Fora isso, nada a alterar, seja em escolha de canções ou proporção de tempo de cada vocalista no palco.

O show oferecido no Bangers ainda será repetido, sem Fabio Lione, em mais dois compromissos: no Espaço Unimed, São Paulo, nesta quarta-feira, 29, com repertório expandido; e num festival no Japão, em outubro, neste caso deixando de contar com Aquiles Priester. Os planos paralelos envolvem mais celebrações ao passado, com direito a uma turnê de 30º aniversário de Holy Land (1996) planejada para o segundo semestre.

Para esta finalidade, Alirio Netto é a escolha certa para permanecer no Angra, seja como único vocalista ou num modelo similar ao executado pelo Helloween, banda pioneira do power metal que segue comum septeto reunindo cantores de diferentes eras. Ainda é difícil imaginar o grupo concebendo algo novo com seu novo cantor, mas seu domínio vocal e similaridade com o timbre de Andre Matos tornam sua presença, dentro deste contexto, mais adequada que a de Fabio Lione.

Mas talvez esteja cedo demais para refletir sobre um futuro concreto. A experiência oferecida por Angra e Bangers no último domingo, 26, mostra que, fazendo do “jeito certo”, a revisitação ao passado pode ser deliciosa.

Angra Reunion no Bangers Open Air 2026 — setlist

Com instrumentistas da formação atual + Alirio Netto:
1. Nothing to Say
2. Angels Cry

Com instrumentistas da formação atual + Fabio Lione:
3. Tide of Changes
4. Lisbon
5. Vida Seca

Com instrumentistas da formação atual + Alirio Netto:
6. Wuthering Heights
7. Carolina IV

Com formação Nova Era (Edu Falaschi, Rafael Bittencourt, Kiko Loureiro, Felipe Andreoli e Aquiles Priester):
8. Nova Era
9. Waiting Silence
10. Millennium Sun
11. Heroes of Sand
12. Ego Painted Grey
13. Bleeding Heart
14. Spread Your Fire
15. Acid Rain
16. Rebirth

Bis:
17. Silence and Distance (Alirio Netto, Edu Falaschi, Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Kiko Loureiro, Felipe Andreoli e Bruno Valverde; voz gravada de Andre Matos em trechos)
18. Late Redemption (Alirio Netto, Edu Falaschi, Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Kiko Loureiro, Felipe Andreoli e Aquiles Priester)
19. Carry On (todos no palco)

+++ LEIA MAIS: Aquiles Priester fala à RS sobre reunião com Angra, W.A.S.P. e Andre Matos
+++ LEIA MAIS: Edu Falaschi fala à RS sobre shows com Angra, novo álbum ‘MI’RAJ’ e 35 anos de carreira
+++ LEIA MAIS: Fabio Lione fala à RS sobre saída do Angra e futuro
+++ Siga a Rolling Stone Brasil @rollingstonebrasil no Instagram
+++ Siga o jornalista Igor Miranda @igormirandasite no Instagram

O post Angra faz história com show de 9 integrantes no Bangers; saiba como foi apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.

.