Especialistas analisam a natureza complexa dos crimes imitativos e explicam por que a violência política está aumentando
O post Luigi Mangione, crimes imitativos e a ascensão da violência política apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
“Será que falar sobre violência vai fazer com que eu seja banido?”, perguntou um membro da sala de bate-papo Stop AI no Discord no início da noite de 8 de dezembro de 2025. Seu nome de usuário era Butlerian Jihadist, uma referência à rebelião humana contra as máquinas em Duna.
Sua publicação chamou a atenção de um produtor que trabalhava para um podcast chamado The Last Invention, que estava documentando debates sobre inteligência artificial geral (AGI), uma forma hipotética de IA que poderia superar a inteligência humana. O repórter enviou uma mensagem para Butlerian Jihadist perguntando a ele que tipo de violência ele tinha em mente.
“Fazer um Luigi (“Luigi’ing” no comentário original em inglês) em alguns CEOs de empresas de tecnologia”, respondeu o usuário, referindo-se a Luigi Mangione, que foi acusado de matar Brian Thompson, CEO da United Healthcare. (Mangione se declarou inocente de todas as acusações.)
Butlerian Jihadist foi entrevistado no podcast logo depois, no final de janeiro. Seu nome verdadeiro é Daniel Moreno-Gama, e ele era um texano de 19 anos que acreditava que a Inteligência Artificial Geral (IAG) poderia levar ao fim da raça humana. Quando o jornalista Andy Mills, apresentador do podcast, perguntou a Moreno-Gama se a violência era uma opção para impedir que essa tecnologia se disseminasse, Moreno-Gama respondeu: “Sem comentários”. Mills perguntou sobre o comentário que ele havia feito anteriormente sobre “Luigi’ing” (algo como “dar uma de Luigi”) e ele disse que não deveria ser interpretado literalmente.
“Então você não acha de verdade que seria sensato alguém, digamos, matar [o CEO da OpenAI] Sam Altman?”, perguntou Mills.
“Não, essas pessoas têm recursos ilimitados — uma pessoa sozinha não vai fazer muita diferença”, respondeu Moreno-Gama. “É quase só risco, sem recompensa.”
Três meses depois, Moreno-Gama foi preso sob a acusação de ter atirado um coquetel molotov na casa de Altman e, em seguida, dirigido até a sede da OpenAI em São Francisco com um galão de querosene, ameaçando incendiar o prédio e matar qualquer pessoa que estivesse lá dentro. As autoridades afirmam ter encontrado um documento com ele listando outras empresas de IA como alvos. (Moreno-Gama se declarou inocente de todas as acusações e seu advogado solicitou uma avaliação de saúde mental.)
Por volta da época do incidente de Moreno-Gama, um homem de 29 anos chamado Chamel Abdulkarim foi preso sob a acusação de incendiar um depósito de papel higiênico na Califórnia. Uma testemunha relatou às autoridades que, após o incêndio, supostamente iniciado por Abdulkarim em protesto contra o capitalismo, ele disse que “muita gente vai entender” e comparou suas ações ao momento em que “Luigi atirou naquele filho da puta”. Um mês depois, os promotores alegaram que Jonathan Rinderknecht, acusado de iniciar o incêndio em Palisades, era fascinado por Mangione, pesquisando seu nome online juntamente com termos como “matar todos os bilionários”, de acordo com documentos judiciais. Os investigadores também afirmam que ele comparou o incêndio criminoso ao atentado contra o CEO da United Healthcare. (Rinderknecht se declarou inocente. Seu advogado disse ao The New York Times que os promotores estavam politizando o caso: “Se a fascinação por Luigi Mangione for prova de incêndio criminoso, o Ministério Público precisará de um tribunal muito maior — porque terão que indiciar metade do país.”)
Embora esses crimes não sejam necessariamente inspirados nas supostas ações de Mangione, um suspeito que o invoca rapidamente atrai a atenção da mídia. E mesmo quando os suspeitos não mencionam Mangione, a imprensa e o público muitas vezes se apressam em conectar seus crimes ou acusar jovens de serem imitadores. Isso aconteceu com o tiroteio na sede da NFL em Nova York, com o assassinato de Charlie Kirk e, em menor escala, com o recente incidente no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca.
Sociólogos e criminologistas que estudam o impacto de crimes de grande repercussão afirmam que as razões por trás da imitação são complexas. A violência política nos EUA atingiu níveis recordes, e a forma como reagimos a atos violentos está mudando. A glorificação de criminosos que atacam os ricos não é novidade — basta pensar no assaltante de bancos da época da Grande Depressão, John Dillinger — e especialistas dizem que isso costuma ser amplificado em tempos de desigualdade de renda e turbulência econômica. É por isso que, às vezes, vemos atos de violência perturbadores sendo celebrados e transformados em memes, enquanto as vítimas são desumanizadas ou descartadas como vilãs. Quando Kirk foi baleado, o vídeo de seu assassinato circulava por toda a internet; era possível navegar entre fotos dos filhos de amigos, receitas de macarrão, um trailer de filme e, de repente, se deparar com um assassinato brutal e sangrento.
“Muitas formas de cultura popular nos apresentam a violência como um espetáculo, algo que podemos apreciar sem consequências”, diz David Schmid, professor de inglês da Universidade de Buffalo, que pesquisa o fascínio dos americanos por assassinatos e true crime. “E nesse aspecto, o [suposto] assassinato de [Thompson] por Luigi Mangione não é, para muitas pessoas, tão diferente de algo que acontece na TV, em um filme ou quando estão jogando Grand Theft Auto. Não há muita realidade nisso.”
“A cultura digital cria essa oportunidade para desvalorizar os seres humanos”, diz Jacqueline Helfgott, professora de criminologia e autora de Copycat Crime: How Media, Technology, and Digital Culture Inspire Criminal Behavior and Violence (em tradução livre: Crime Imitador: Como a Mídia, a Tecnologia e a Cultura Digital Inspiram o Comportamento Criminoso e a Violência). “Esse é o mal que advém de tudo isso.”
Durante a conversa de Mills com Moreno-Gama, o suposto agressor de Altman disse que não concordava com a suposta violência fatal de Mangione contra Thompson. Mas então o adolescente acrescentou: “Acho que o que vimos com Mangione foi que muitas pessoas conseguiram justificar o ocorrido.”
Um crime imitativo, ou crime copycat, é modelado ou inspirado em um crime anterior, fictício ou real. Existem muitos fatores que podem tornar os crimes mais propensos a serem imitados, explica Helfgott: “Fazer com que os crimes pareçam divertidos, a atratividade do perpetrador, o grau em que o perpetrador e a pessoa que o está imitando são semelhantes de alguma forma.”
“O efeito copycat (ou efeito imitação) é a narrativa que se cria sobre a violência e a justificativa para essa violência que ressoa nas pessoas”, diz Helfgott. No caso de Mangione, ela explica, alguns acreditam que ele estava tentando “salvar pessoas de seguradoras prejudiciais”. Somado às imagens de Mangione saindo de um helicóptero a caminho de um tribunal em Manhattan — uma exibição pública que lembrava um filme da Marvel — a prisão de Mangione tinha muitas das características que inspirariam pessoas a cometer crimes.
“Tudo isso contribui para exacerbar o efeito imitação, porque não só existe uma justificativa para a violência, como ele é visto como uma espécie de Robin Hood moderno”, diz Helfgott. “Ele também é um indivíduo esteticamente atraente que muitas pessoas idolatram. Tudo nesse caso exacerba o efeito imitação.”
Helfgott afirma que os “indivíduos à beira do precipício”, ou seja, pessoas que consideram cometer um crime, são frequentemente influenciadas pela cultura digital, pelas imagens da mídia e pela estética da violência. Além disso, aqueles que estão no início de sua trajetória criminosa muitas vezes experimentam sua identidade criminosa imitando os crimes de outros.
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