Quarto disco do cantor tem produção interessante, mas tropeça em faixas curtas demais e letras que não dizem nada
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Quatro anos se passaram desde Smithereens (2022), o último álbum de Joji pela 88 Rising, e a expectativa era alta pra ver o que ele faria agora independente, lançando pela própria Palace Creek. A resposta chegou há duas semanas com Piss In The Wind (2026), 21 faixas que somam apenas 34 minutos (somente). E o problema fica claro nos primeiros cinco minutos de audição: metade dessas músicas não parecem prontas. Quatorze delas têm menos de dois minutos e não são interlúdios, são realmente ideias que ficaram pela metade, esboços que deveriam ter sido desenvolvidos mas foram jogados no disco mesmo assim.
Joji, que sempre foi conhecido por baladas melancólicas e produção minimalista, aqui lançou um trabalho aquém do esperado, que mais frustra do que emociona.
Piss In The Wind desperdiça boas ideias por falta de paciência. “PIXELATED KISSES” abre o disco com sintetizadores distorcidos e bateria pesada, som agressivo que lembra trap de artistas como Bladee e Playboi Carti, mas termina em um minuto e meio sem ir a lugar nenhum. “Fade to Black” e “Fragments” (com Don Toliver) têm momentos bonitos mas acabam antes de construir qualquer coisa. Parece que Joji gravou o refrão mais um verso e não pensou no restante da música. E isso se repete em metade do álbum. Algumas faixas soam como demos que ele esqueceu de terminar antes da data de entrega.
A produção tem seus momentos. “Sojourn”, produzida por Kenny Beats (agora apenas “the artist formerly known as Kenny Beats”) e Dylan Brady do 100 gecs, é destaque absoluto — darkwave atmosférico perfeito para madrugada, com sintetizadores densos e batida hipnótica que finalmente dá espaço pro som respirar. “Rose Colored” mistura guitarras distorcidas com trap, e embora Yeat contribua pouco além de 30 segundos de rap desinteressado, a produção segura a música sozinha. Mas esses acertos fazem o resto do disco parecer ainda pior por comparação. Por que Joji consegue fazer “Sojourn” funcionar perfeitamente mas entrega “Love Me Better” e “Forehead Touch the Ground” como se tivesse perdido interesse no meio do caminho?
As baladas de piano, que sempre foram território seguro dele, aqui variam entre competentes e completamente esquecíveis. “Past Won’t Leave My Bed” é a melhor delas — piano dramático, vocais que finalmente mostram alguma emoção, progressão que faz sentido. “Last of a Dying Breed” dura menos de dois minutos e não vai a lugar nenhum. “Piece of You” com Giveon — uma das mais esperadas — expõe o quanto Joji poderia estar entregando se tivesse um pingo da expressividade vocal do parceiro. Giveon canta dando a vida enquanto Joji soa quase robótico ao lado dele. E isso é constante: ele canta como se estivesse lendo teleprompter, voz plana que nunca transmite urgência ou dor de verdade. Pra alguém que faz música sobre desgosto amoroso desde 2017, ele continua soando surpreendentemente desinteressado no próprio sofrimento.
Liricamente, Piss In The Wind não oferece absolutamente nada novo. Joji continua escrevendo frases genéricas sobre relacionamentos que poderiam estar em qualquer cartão de dia dos namorados — “algo sobre você / não sai da minha cabeça” em “Past Won’t Leave My Bed”, “se eu te amar menos / você vai me amar mais?” em “LOVE YOU LESS”. São linhas tão vagas que não dizem nada sobre quem ele é ou o que ele sente de verdade. Compare isso com Frank Ocean, uma das influências claras de Joji, que consegue contar história inteira em uma linha só.
Muitos podem argumentar que essas músicas curtas e fragmentadas fazem parte do estilo minimalista de Joji, que confia mais na atmosfera do que na estrutura tradicional. Mas existe diferença entre minimalismo intencional e ideia mal desenvolvida. “Glimpse of Us” era minimalista — piano, voz, emoção crua, nada mais. Mas durava três minutos e meio, tinha progressão, construía clímax, terminava quando deveria. Aqui, faixas como “PIXELATED KISSES” e “Fade to Black” não são minimalistas, são incompletas. Apresentam conceito interessante e cortam antes de desenvolver.
Piss In The Wind tem salvação? Tem. “LOVE YOU LESS” mistura shoegaze com R&B de forma interessante, “Sojourn” já foi mencionada mas merece ser citada de novo como prova de que Joji ainda consegue fazer música boa quando se esforça e “DYKILY” usa um beat de forma decente — mesmo que repetitiva. O disco não é ofensivamente ruim. É só decepcionantemente medíocre, e pra artista do calibre de Joji, isso é quase pior.
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