Formado por Khn de Poitrine e Klek de Poitrine, grupo de Math rock foi formado no Canadá
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Estava bem confortável na mesmice sonora da vida quando, apático, arrastando os dedos pela tela do celular bato os olhos em uma pessoa vestida com trajes pretos com padrões de bolinhas brancas, uma máscara de papel machê com um narigão fálico, cabelos compridos de corda e um chapelão meio quadrado-triangular (se é que você me entende). O frame seguinte mostra outra pessoa, também vestida com padrões de bolinhas (mas cores invertidas) e uma máscara igualmente de papel machê, preta, com o nariz fálico pendurado no meio da cara. Ignoro e sigo arrastando os dedos pela tela.
No outro dia, um amigo me pergunta, animado, se eu já tinha ouvido o Angine De Poitrine, e eu peço para ele repetir e soletrar o nome da banda e eis que surgem as duas figuras que passaram rapidamente pelos meus olhos no dia anterior. Digo que não e ele, empolgado, me conta um pouco do que se trata as duas personas bizarras. No mesmo dia, mais três pessoas me perguntam sobre o Angine.
E não é pra menos, Angine De Potrine é a coisa mais interessante que está acontecendo na música na atualidade, sem exageros. O duo de Quebec, no Canadá, é formado por Khn De Poitrine na guitarra e baixo, sim, o instrumento dele tem os dois instrumentos conectados, e Klek De Potrine, na bateria.
A primeira vista você pensa que é só mais uma banda maluca experimental e excêntrica querendo atenção. Talvez seja, mas é uma banda, ou melhor, um duo, maluco, bizarro, experimental e excêntrico que está deixando os músicos e criadores de conteúdo sobre música enlouquecidos na rede mundial de computadores. Vou tentar transcrever o impacto visual e sonoro que é o Angine nesse texto, mas nada vai superar assisti-los e ouvi-los você mesmo.
O vídeo que se tornou viral (e no momento que estou escrevendo está com mais de 4,9 milhões de visualizações), é de uma apresentação na KEXP, uma rádio de Seatlle, que estava transmitindo shows que gravaram no Rencontres Trans Musicales, em Renne, na França. A apresentação tem cerca de 28 minutos, em que o duo toca apenas quatro músicas, majoritariamente instrumental, mas algumas com intervenções vocais na língua que eles inventaram. Sim, eles não falam em nenhuma língua conhecida, e o dialeto lembra o som do modem de internet discada.
Quando você bate os olhos pela primeira vez, o visual do duo lembra vestimentas dadaístas ou de alguma seita bizarra do século XIV, uma mistura de bobos da corte com grãos-mestre maçônicos. Inclusive, antes da apresentação e entre as músicas, eles fazem um triângulo com as mãos em uma saudação interplanetária que só eles conhecem. Khn, o guitarrista, toca descalço para conseguir precisão nos pedais de sua guitarra/baixo, que aliás, são microtonais (mas falo sobre isso mais pra frente), e Klek, o baterista, tem seu instrumento coberto por panos também estampados com padrões de bolinhas. Tudo em preto e branco. E isso tudo é o que você percebe antes de eles começarem a tocar.
A primeira música começa com Khn fazendo uma base no baixo e Klek o acompanhando, e a medida que a coisa se estende, você percebe o quão genial e espantosamente metódico é o som desses caras. Khn usa com maestria o loop do pedal, ora gravando a base da guitarra, ora do baixo. E desligando um loop para gravar outro enquanto mais um loop, do baixo, está marcando o ritmo, que é completamente desmontado e montado conforme a música rola. O domínio de tempo, contratempo e mudança de levadas do duo é fascinante, e a cereja do bolo é a escala microtonal dos instrumentos.
Em vez de ter apenas os trastes comuns das guitarras, o instrumento microtonal tem trastes entre os trastes, ou seja, ao invés do músico passar de uma nota diretamente pra outra, os trastes extra permitem que ele passeie por vários “tons” entre as notas, o que não é possível com guitarras comuns, e o que deixa o som, o tempo, a levada e o ritmo mais maluco que suas roupas.
As vestimentas de Khn e Klek são ao mesmo tempo inebriantes e incômodas, pois você não consegue parar de olhar, e enxerga algo diferente cada vez que olha. Além disso, em outra banda elas até poderiam te distrair da música, mas com Angine ela é parte da música. “Eles soam exatamente como se parecem”, disse uma pessoa no comentário do vídeo. E é exatamente isso: você fica hipnotizado com a maestria e a simbiose dos músicos durante todo o vídeo. Eles tem apenas um disco gravado, Vol. I (2024), mas o Vol. II está previsto para ser lançado em abril de 2026.
As músicas do Angine têm vida própria, ela invade sua percepção sem pedir licença e quebra todos os paradigmas de tempo que você tinha até então. Te tira da zona de conforto e te desafia a entender a complexidade sem perder a sonoridade e o ritmo. O duo é completamente necessário num tempo em que estamos cada vez mais pasteurizados musicalmente. Angine não é um duo, é uma experiência sonora e visual, capaz de te hipnotizar ao mesmo tempo em que te faz dançar.
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