Como a Legião Urbana se inseriu no DNA cultural brasileiro em ‘Dois’

Escrito em 17/07/2026
Pedro Hollanda (@phollanda21)

Trazendo músicas como 'Quase Sem Querer', 'Eduardo e Mônica' e 'Tempo Perdido', álbum ficou marcado por sofisticação nos arranjos e complexidade das letras

O post Como a Legião Urbana se inseriu no DNA cultural brasileiro em ‘Dois’ apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.

Capa de 'Dois', álbum da Legião Urbana (Foto: divulgação)

A Legião Urbana é uma banda tão famosa a ponto de ser, ainda hoje, figura frequente em rádios, TV e rodas de violão por todo o Brasil. Trata-se de um grupo fundamental até para o aprendizado musical no país, graças à simplicidade das canções e o lirismo de Renato Russo. Isso nunca esteve tão em evidência quanto em Dois (1986).

O segundo álbum do grupo marcou o momento em que passou de promessa para um gigante da música nacional. Num período cheio de clássicos e contemporâneos como Barão Vermelho, Titãs e Paralamas do Sucesso, ninguém da geração BRock é tão idolatrado quanto a Legião.

Capa de 'Dois', álbum da Legião Urbana (Foto: divulgação)
Capa de ‘Dois’, álbum da Legião Urbana (Foto: divulgação)

Saindo de Brasília

Após o lançamento do álbum de estreia, Legião Urbana (1985), os integrantes – Renato Russo (vocais), Dado Villa-Lobos (guitarra), Renato Rocha (baixo) e Marcelo Bonfá (bateria) – se mudaram de Brasília para o Rio de Janeiro. A expectativa era, em meio à turnê de promoção do disco, já começar a trabalhar no próximo.

Em entrevista à Vice, Dado revelou como a mentalidade da banda ia além de expectativas normais. A síndrome do segundo disco era para ser evitada a todo custo:

“Renato vinha sempre com a conversa da síndrome do segundo disco: tem que fazer jus aquele primeiro e incendiar a fogueira pra conseguir seguir adiante. Esse era o pensamento do Renato, que era nosso guia.”

Ambição

O repertório do que viria a ser Dois foi construído dentro do estúdio, mas ainda reaproveitando material existente desde a época do Aborto Elétrico, banda punk de Brasília liderada por Renato Russo. Um aspecto importante das músicas compostas era que, ao contrário dos seus contemporâneos focados em guitarras, a Legião apostada em arranjos mais acústicos.

Em entrevista à Vice, Dado Villa-Lobos citou Paul McCartney, Cat Stevens e John Lennon como influências. Segundo ele, a vontade de usar violões partiu de Renato Russo:

“Ele achava importante essa linguagem existir. E aquilo realmente abriu uma janela pra mim com novas perspectivas, junto com o fato de que eu também estava ouvindo João Gilberto, aprendendo a tocar umas inversões de acordes, entendendo mais de harmonias e melodias, tanto que saiu ‘Andrea Doria’.”

Além disso, Renato desenvolveu uma sequência bem intencional para o álbum. No livro BRock – O Rock Brasileiro dos Anos 80, Arthur Dapieve (via O Povo) aponta como Dois começa tal qual uma continuação direta de Legião Urbana, ligando a última música de um à primeira do outro:

“O dial de um rádio era girado, passava por ‘Será’ entre chiados e ia ‘pegar’ ‘Daniel Na Cova dos Leões’, cujo parente mais próximo no disco anterior era justo a última faixa, ‘Por Enquanto’.”

Tudo era bastante intencional na produção, feita pela banda com Mayrton Bahia. Restava ver se o público brasileiro iria comprar essa evolução.

Legado

O desafio de avaliar Dois é tentar divorciar o álbum em si da sua onipresença na cultura brasileira. As músicas são, a esse ponto, parte do DNA nacional, mas isso tem um motivo claro: trata-se de uma coleção incrível de canções.

Desde “Daniel na Cova dos Leões”, que tira seu título de uma parábola bíblica para contar uma história com subtexto LGBTQ+, até o romance despretensioso de “Eduardo e Mônica” e e o drama de “Tempo Perdido”, a Legião encheu Dois com algumas das melhores composições da carreira da banda. E ainda brincou além dos limites dos integrantes como instrumentistas em “Índios”, notoriamente evitada em shows.

Dois consegue a façanha de, num ano com clássicos como Selvagem (1986), do Paralamas, e Cabeça Dinossauro (1986), não apenas emplacar mais sucessos, mas soar mais maduro. Além disso, ao apostar em elementos mais acústicos, não soa tão produto de sua época quanto os outros dois citados e também incentiva pessoas a aprenderem as canções no violão.

É um disco liricamente complexo, porém musicalmente acessível. Cheio de temas tabu e referências obscuras, mas que caiu nas graças do povo. Atemporal.

+++ LEIA MAIS: O maior erro das pessoas ao falar sobre Renato Russo, segundo Dado Villa-Lobos
+++ LEIA MAIS: Legião Urbana tem algumas músicas chatinhas, admite Dado Villa-Lobos
+++ LEIA MAIS: Dado Villa-Lobos fala à RS sobre música nova, 40 anos de ‘Dois’ e Marcelo Bonfá

O post Como a Legião Urbana se inseriu no DNA cultural brasileiro em ‘Dois’ apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.

.