Cinebiografia funciona como tributo emocionante aos fãs de Michael Jackson e brilha com interpretação de Jaafar, mas idealiza seu protagonista sem se aprofundar na vida pessoal
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A primeira parte da cinebiografia Michael (2026) retrata a vida e carreira do Rei do Pop desde sua infância na década de 60, na pequena cidade de Gary, Indiana — quando formou o Jackson 5 ao lado de seus quatro irmãos — passando pelo lançamento do álbum que o levou ao estrelato, Off The Wall (1979), seguido por Thriller (1982). A obra alcança até a turnê final do cantor com os Jacksons (Victory Tour), e a sua decisão de se desprender das amarras familiares e seguir como um artista solo.
Dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) e roteirizado pelo indicado ao Oscar John Logan, Michael é claramente feito para os fãs. O filme explora o surgimento do estrelato pop como o conhecemos hoje (marcado por paparazzis incessantes e fãs tão devotos que chegam a desmaiar nos shows), enquanto retrata um protagonista que parece não apenas lidar com esse caos, mas também se alimentar dele.
Ao invés de se aprofundar na vida pessoal de Michael, o grande fio condutor (e o maior triunfo da obra) é a sua arte. Ao longo de pouco mais de duas horas, o longa revisita com maestria dezenas de músicas de diferentes momentos da carreira do astro, recriando algumas de suas performances mais icônicas. Todos os elementos são cuidadosamente estruturados com o objetivo de convergir para a música, a fim de evocar sensações próximas às de um show. A vontade do público é de levantar da cadeira do cinema e dançar.
“Acredito que a música pode mudar o mundo. Espalhar amor, alegria e paz. É isso que eu quero que o mundo sinta: magia”, diz Michael.
Outro destaque é a atuação espetacular de Jaafar Jackson, sobrinho do cantor na vida real e filho de Jermaine Jackson, ex-integrante do Jackson 5. Apesar de já ser cantor e dançarino, este foi o primeiro trabalho de Jaafar como ator. Mesmo sendo novato na indústria, ele conseguiu incorporar o espírito de Michael Jackson, e a caracterização é realmente impressionante.
Colman Domingo vive o patriarca da família, Joe Jackson. A relação violenta do pai com Michael é um pivô para a narrativa: enquanto Joe sonha em “capitalizar” o sucesso de seu filho para fortalecer a marca da família Jackson, o cantor se afasta cada vez mais da família em busca de uma carreira autêntica para si. Apesar dos esforços de Michael, a relação tóxica com seu pai molda muitas de suas inseguranças e traumas.
Envolto em uma aura de vulnerabilidade emocional, Michael é retratado como um astro carismático, sensível, empático, detentor de um dom o qual ninguém consegue ignorar e, apesar disso, profundamente solitário. Há um claro contraste na forma como Michael e seu pai abordam a fama: enquanto a ambição do cantor é uma qualidade inabalável — que o transforma no primeiro homem negro a ser exibido na MTV —, a ganância de Joe é estereotípica de um grande vilão.
Apesar de pincelar tantos temas da vida pessoal de Michael — desde sua relação abusiva com o pai e o carinho pela mãe, passando por seu amor inabalável por animais até suas inseguranças estéticas, como o vitiligo e o “nariz grande” (que leva o cantor a realizar uma rinoplastia) —, o longa não entra em detalhes em nenhum desses aspectos. Nem mesmo seus irmãos, que compõem o Jackson 5, possuem opinião própria ao longo do filme, seja quanto aos abusos do pai ou à ascensão meteórica de Michael.
A referência à história de Peter Pan é um elemento recorrente, que acompanha o astro da infância à vida adulta. Essa conexão deve ganhar mais profundidade no segundo filme, visto que o Rancho Neverland (Terra do Nunca), casa e parque de diversões privado que Michael, foi construído em 1988.
Este é o início triunfante de uma história catastrófica, e o espectador já sabe que enfrentará um declínio próximo. O encerramento do longa parece apressado e chega com a promessa de uma continuação, que apresentará desafios ainda maiores.
Polêmicas na produção
O produtor Graham King, um dos responsáveis pelo vencedor do Oscar Bohemian Rhapsody, anunciou sua intenção de levar a história de Jackson para as telonas em 2019. Entretanto, as filmagens sofreram diversos atrasos e polêmicas, principalmente relacionadas às múltiplas alegações de abuso sexual infantil que levaram o cantor a ser preso em 2003 (e, dois anos depois, absolvido das acusações).
No início de 2025, Michael teria enfrentado um obstáculo legal devido a um acordo firmado com uma das ex-acusadoras de Jackson, Jordan Chandler. Em 1993, aos 13 anos, Chandler acusou o cantor de abuso sexual, o que levou a um acordo de aproximadamente US$ 25 milhões. Uma das cláusulas estipulava que os Chandlers não deveriam ser mencionados em nenhum filme sobre Michael, mas teria sido ignorada durante a produção. Chandler era, segundo relatos, uma figura chave no roteiro de Logan, e a mudança exigiu extensas reescritas e refilmagens.
Embora a primeira parte não alcance o período das acusações, a idealização do protagonista acaba se tornando um obstáculo ao próprio objetivo do filme. Há um destaque para as ações de caridade do cantor, suas visitas a crianças com câncer e as generosas doações feitas a hospitais. Mas, ao apresentar um Michael quase sem defeitos, a narrativa expõe sua maior insegurança, tornando a credibilidade da obra ainda mais questionável — especialmente considerando que diversos momentos sombrios da vida de Jackson foram amplamente documentados pela mídia ao longo dos anos.
Os conflitos familiares e pessoais enfrentados pelo astro, encenados de forma emocionalmente impactante, disfarçam a falta de profundidade real da narrativa. Mesmo as polêmicas menores deste momento da carreira de Michael, como a forte devoção do músico à religião que quase impediu o lançamento do videoclipe de “Thriller”, não são retratados.
A filha de Jackson, Paris, criticou a representação de seu falecido pai. “Uma grande parte do filme agrada a um segmento muito específico dos fãs do meu pai que ainda vivem na fantasia, e eles ficarão felizes com isso”, disse. “O problema dessas cinebiografias é que são Hollywood. É um mundo de fantasia. Não é real. Mas é vendido como se fosse. A narrativa está sendo controlada. E há muita imprecisão e muitas mentiras descaradas. No fim das contas, isso não me convence.”
Para os fãs de Michael Jackson, o filme é um tributo sólido e confortável, que transita entre alegria, tristeza e momentos de injustiça, mas, acima de tudo, enaltece a paixão do cantor pela música. Na sala de exibição para a imprensa e influenciadores, foi possível escutar as lágrimas dos amantes do Rei do Pop, que se emocionaram com o retrato saudoso que Michael entrega. Para o espectador leigo, a obra é um espetáculo visual; entretanto, não sai ilesa dos clichês das cinebiografias: pode te cativar musicalmente, mas não abre espaço para questionamentos — e talvez não guarde um lugar na sua memória por muito tempo.
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