Bryan Adams entrega em São Paulo o arquétipo do show praticamente perfeito

Escrito em 08/03/2026
Igor Miranda (@igormirandasite)

Tudo o que se espera de uma boa apresentação ao vivo foi oferecido nas pouco mais de duas horas em que o artista esteve no palco da Vibra São Paulo no último sábado, 7

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Bryan Adams durante show em São Paulo (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

“Tocar ao vivo é a única maneira de divulgar sua música hoje em dia”, me disse Bryan Adams, em entrevista publicada na Rolling Stone Brasil, quando lhe perguntei sobre seu alto número de shows. O artista, hoje com 66 anos, realizou mais de 130 apresentações ao vivo em 2025 e ultrapassou a marca de 100 em 2024. Na média, seriam duas a três performances por semana. Considere longos deslocamentos internacionais e perceba que artistas mais jovens mal fazem metade disso aí.

Embora tenha iniciado recentemente os trabalhos de sua própria gravadora — Bad Records —, o cantor, compositor e multi-instrumentista canadense parece consciente do papel adquirido pelos shows conforme o consumo de música foi mudando nas últimas décadas. Seja por isso, seja por todo o cuidado que demonstrou ter com seu próprio trabalho ao longo da carreira, Adams pareceu ter chegado a um modelo praticamente perfeito de apresentação ao vivo.

Acompanhado de Luke Doucet (guitarra; substituindo Keith Scott), Gary Breit (Teclados) e Pat Steward (bateria), Bryan entregou ao público da Vibra São Paulo, no último sábado, 7, durante a segunda de suas quatro apresentações no Brasil, um show cautelosamente montado para entreter e encantar do início ao fim. Foi feliz na maioria de suas 30 escolhas para o repertório de pouco mais de duas horas e não teve medo de recorrer a estratégias diferentes para prender a atenção do público até durante músicas menos celebradas, como:

  • botar infláveis gigantes de luva de boxe e de carro para voar sobre os fãs respectivamente em “Roll with the Punches” e “So Happy It Hurts”;
  • pedir por lanternas de celular na pop-rock água com açúcar “Shine a Light”;
  • exibir no telão as letras de quase todas essas canções;
  • orientar que o cameraman filmasse pessoas dançando ou tirando a camiseta na rockabilly “You Belong to Me”;
  • prometer que Pat Steward, em seu figurino à la Chad Smith (Red Hot Chili Peppers), tocaria “o melhor solo de bateria que vocês verão na vida” no meio de “Make Up Your Mind” (e calhar de ser um solo inspirado em “Won’t Get Fooled Again”, do The Who).
Bryan Adams durante show em São Paulo (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Bryan Adams durante show em São Paulo (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

Falta de popularidade não era o caso das três canções de abertura, as conhecidas “Can’t Stop This Thing We Started”, “Straight from the Heart” e “Let’s Make a Night to Remember”. Mas até esta trinca foi tocada de um jeito diferente: por Bryan sozinho, munido apenas de violão e microfone, em um palco montado no meio da Vibra, na separação entre pista e cadeiras. Ao longo de toda a turnê atual “Roll with the Punches”, Adams já começa a noite cara a cara com muitas pessoas que não o veriam de tão perto.

Após retornar ao palco real e tocar a classic-rocker “Kick Ass” sob forte iluminação vermelha — e provocar as primeiras piscadas de pulseiras iluminadas distribuídas à plateia —, Bryan, sem pudor, emendou uma sequência composta majoritariamente por hits. Sim, sucessos formam quase todo o repertório, mas ainda é corajoso antecipar canções como a cortante reflexão sobre infidelidade “Run to You” (5ª no set), a grudenta “Somebody” (6ª) e as baladaças “Do I Have to Say the Words?” (8ª) e “Please Forgive Me” (10ª) para os 40 minutos iniciais. Muitas delas poderiam ser seguradas para o final, mas Adams não faz isso. Ele sabe que é importante manter a plateia interessada.

A essa altura, diga-se, o artista já havia percorrido todo o palco, cantado em quatro pontos diferentes (esquerda, direita, centro e à frente na passarela) e tocado não apenas violão, como também baixo e guitarra. Em um padrão mantido por todo o set, não deixou o palco e sequer deu pausas para respirar ou beber água; no máximo, parou para conversar algumas vezes com a plateia, seja para brincar que no Brasil seu nome vira uma palavra só (“Braianadams”), arriscar verbetes em português (o cumprimento “como está?” e dizer que cantar as partes de Tina Turner na poderosa “It’s Only Love” é coisa de “louco”) ou agradecer.

Bryan Adams durante show em São Paulo (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Bryan Adams durante show em São Paulo (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

Deve-se reconhecer que “praticamente perfeito” não é perfeito. Rendem mínimos lamentos a versão repaginada do mega-hit “Heaven”, um pouco descaracterizada por trazer violões e não teclados no centro da ação, e a decisão de concentrar um volume mais alto de baladas no terço final do repertório. Talvez a banda precise do descanso do qual Bryan abdicou, visto que “Here I Am” foi tocada apenas com Gary Breit ao piano e tanto “When You’re Gone” quanto o encerramento “All for Love” (do filme Os Três Mosqueteiros) trouxeram apenas Adams no palco.

Todavia, “praticamente perfeito” é muita coisa. Mesmo na porção derradeira e mais lenta do set, há fortes destaques como o hit inspirado em ritmos latinos “Have You Ever Really Loved a Woman?” (gravada para o longa-metragem Don Juan DeMarco, de 1995, e adaptada por Chitãozinho e Xororó em “Um homem quando ama”), a música de amor ideal “(Everything I Do) I Do It for You” (outra de filme, Robin Hood: o Príncipe dos Ladrões, de 1991), a embebida em nostalgia “Summer of ’69” e “Cuts Like a Knife”, com seu pós-refrão de “na-na-na’s” à la “Hey Jude”, dos Beatles.

O arquétipo do show praticamente perfeito tem seu preço, já que a maioria dos ingressos inteira custava entre R$ 900 e R$ 1 mil, mas não dá para deixar de dizer que Bryan Adams faz valer o investimento. Trata-se de uma apresentação beirando o impecável em escolha de repertório, performance (o protagonista canta como se estivesse em 1984) e aspectos técnicos (cuidado estético apurado no uso dos telões e iluminação unido a um dos sons mais límpidos já testemunhados na Vibra). Ainda dá tempo de assisti-lo em Curitiba (09/03) e Porto Alegre (11/03).

Bryan Adams durante show em São Paulo (Foto: Ellen Artie @ellenartie)
Bryan Adams durante show em São Paulo (Foto: Ellen Artie @ellenartie)

Bryan Adams — setlist em São Paulo

1. Can’t Stop This Thing We Started (acústica, em palco alternativo)
2. Straight From the Heart (acústica, em palco alternativo)
3. Let’s Make a Night to Remember (acústica, em palco alternativo)
4. Kick Ass
5. Run to You
6. Somebody
7. Roll With the Punches
8. Do I Have to Say the Words?
9. 18 til I Die
10. Please Forgive Me
11. It’s Only Love
12. Shine a Light
13. Heaven
14. Never Ever Let You Go (parcial)
15. This Time
16. Heat of the Night
17. Make Up Your Mind
18. You Belong to Me (com trecho de “Blue Suede Shoes”)
19. Twist and Shout (original do The Top Notes)
20. Have You Ever Really Loved a Woman?
21. When You Love Someone
22. So Happy It Hurts
23. Here I Am (acústica, com Gary Breit no piano)
24. When You’re Gone (acústica, com Bryan sozinho)
25. The Only Thing That Looks Good on Me Is You
26. (Everything I Do) I Do It for You
27. Back to You
28. Summer of ’69
29. Cuts Like a Knife
30. All for Love (acústica, com Bryan sozinho)

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