Di Ferrero lança álbum mais vulnerável da carreira: ‘Criei a coragem de não agradar’

Escrito em 22/05/2026
Gabriela Nangino (@gabinangino)

‘SE7E’, novo projeto do ex-NX Zero, inclui três faixas inéditas e amarra a narrativa de EPs anteriores

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Di Ferrero, ex-vocalista do NX Zero

Após lançar dois EPs ao longo de 2025, Di Ferrero apresenta ao público sua versão mais vulnerável e conceitualmente madura no álbum SE7E, que chegou às plataformas digitais nesta quinta, 21. O disco adiciona cinco novidades ao repertório já conhecido pelos fãs: uma introdução, uma versão ao vivo de “Unfollow” e três faixas inéditas — “Deixa Sonhar”, “Cuida” e “Fim do Mundo” — que funcionam como as peças finais do universo emocional do projeto, explorando diferentes estados de espírito do artista. 

“Eu nunca tinha lançado um álbum em partes, e isso fez com que ele ficasse mais colaborativo”, refletiu Di Ferrero em entrevista à Rolling Stone Brasil. “Deu para sentir o que as pessoas estavam ouvindo, qual era o caminho a seguir, o que faltava. Foi um momento de vida inteiro, um ano para fazer esses lançamentos esporádicos que conversam [entre si], e eu sinto que agora tem um encerramento”.

Nascido Diego José Ferrero, o cantor assumiu os vocais do NX Zero em 2004 e se tornou um dos principais nomes do rock nacional dos anos 2000 com hits como “Razões e Emoções”. Desde o hiato da banda, em 2017, passou a se dedicar à carreira solo, apostando em mais liberdade criativa e uma amplitude de referências sonoras além do emo. 

Em seu projeto mais recente, essa evolução aparece na produção e na composição: o álbum mistura pop rock contemporâneo, referências místicas, ambiências atmosféricas e guitarras carregadas de emoção. Após mais de duas décadas de carreira, a narrativa de SE7E acompanha uma fase de transformação, crescimento pessoal e novas perspectivas. 

“Fiz 40 anos, então estou numa fase da vida que é nova pra mim. Tô refletindo muito e vendo o tanto que o meu tempo é mais importante do que muitas outras coisas”, explicou o cantor. “Às vezes eu perdia meu tempo e passava em cima de mim mesmo ou das minhas vontades para agradar [os outros]. Agora eu criei a coragem de não agradar.”

Essa busca por autenticidade também atravessa a identidade conceitual do álbum. Di conta que sua relação com a espiritualidade e com a astrologia — que vêm de berço, sua mãe é astróloga — foi determinante para a construção do projeto. O título SE7E, inclusive, tem relação com a Numerologia Cabalística. O 7 é o símbolo máximo da espiritualidade, representando transformação interior, despertar da consciência e conexão com o divino.

“Minhas tias são ciganas, então desde que lancei a minha primeira música, eu estava com uma miçanga, com um colar, com uma proteção. Com esses sentimentos, veio a ideia de fazer o SE7E, e transformar essa coisa de família que cresci convivendo em um conceito junto com as músicas. E aí eu mergulhei de cabeça.”

A escolha da data de lançamento, 21 de maio, também foi pensada por ser um período de Lua Nova — momento associado a recomeços, expansão e novos ciclos.

A identidade visual de SE7E foi criada por cccaramelo, com direção criativa de Bruno Zampoli e design assinado por Phillipe Santos e Madu Guimarães. As artes de capa e contracapa traduzem a atmosfera mística do projeto. “E o horário do lançamento [19 horas], é a hora que o dia está acabando, a noite está chegando, aí o céu fica azul, que é a cor do álbum.”

Capa de 'SE7E', novo álbum de Di Ferrero
Capa de ‘SE7E’, novo álbum de Di Ferrero (Foto: Divulgação)

Parcerias

As colaborações desempenham papel fundamental em SE7E. Diferente de projetos anteriores, Di decidiu trabalhar prioritariamente com artistas próximos de sua trajetória, criando um ambiente mais íntimo dentro do estúdio. Alguns exemplos são Thiago Castanho, ex-guitarrista do Charlie Brown Jr., Gee Rocha  — “que foi meu amigo antes, durante e depois do NX Zero” — e o guitarrista Mateus Asato.

“Tem feats que fiz que eu não conheço a pessoa, e não tem problema, eu chamo o artista e falo, ‘cara, vamos fazer um som junto?’ Vamos. Mas esse álbum é tão introspectivo, de uma certa forma, que eu falei, ‘vou chamar só as pessoas que conheço’”.

Uma parceria central do álbum é Jenni Mosello, que colaborou em grande parte das composições, fez um feat. em “Deixa Sonhar” e contribuiu com vocais para “Azul Oceano” e “Fim do Mundo”. A relação criativa entre os dois é antiga: eles se conheceram no programa X Factor. “Além da Jenni ser um talento, a gente teve sessões de terapia mesmo, falando das músicas, das letras, criando ideias”, conta Di.

Inéditas 

Entre as inéditas, “Deixa Sonhar” é uma das músicas mais esperançosas do disco. A faixa fala sobre a passagem do tempo e a necessidade de continuar sonhando, mesmo diante das incertezas da vida. 

Di conta como surgiu a ideia da música. “[Eu e meus produtores] fizemos uma viagem, para sair um pouco de São Paulo, ver nossa vida de fora, mesmo, para focar. Um dia, acordei [no Airbnb], resolvi sair para correr, e tava todo mundo ali na sala. Falei ‘cara, mas que louco esse lugar, imagina se a gente fosse daqui, ou vivesse aqui, quem nós seríamos’? Aí começamos a viajar e falamos: é muito bom continuar sonhando, tem que deixar sonhar, deixar fluir, não parar de almejar”. 

É um estado de depressão quando a pessoa não tem motivação, e você tem até medo de querer algo. Se você fala ‘é impossível, eu não vou conseguir’, você já trava. Então veio esse nome, eu fui correr, voltei e já gravei a voz ali, foi uma loucura.

Já “Fim do Mundo” traduz a tentativa de seguir em frente em meio à confusão emocional de um trauma, utilizando a ironia para conceder um toque de leveza ao álbum. Mas a inspiração para a criação da música foi bem diferente: 

“No dia anterior, a gente tinha sido atacado na rua por um louco e sei lá, e a gente, com os produtores, a gente saiu do estúdio e foi pego de surpresa, e a gente nem tava no Brasil, tava em Los Angeles, então não esperava, foi uma situação muito doida. E, ao mesmo tempo que é triste, no outro dia a vida continua. O mundo tá muito louco, né? Parece que é o fim do mundo, mas a certeza que a gente tem é que a gente vai ter um fim, eu, você. Aí começou essa conversa e saiu essa música”.

A gente tem que sorrir, seguir, mesmo com o mundo louco desse jeito, assim, a gente tem que fazer o nosso melhor, mas tem coisa que não tá no nosso controle.

Cuida”, por sua vez, aparece como o momento mais pessoal do álbum, abordando a experiência em um relacionamento tóxico e o processo de estabelecer limites para se colocar em primeiro plano. 

“Essa música nasceu de uma conversa, eu estava contando sobre uma relação difícil que me fazia muito mal, e eu não tinha a coragem mesmo de tomar uma atitude, eu sempre deixava [ela] passar por cima do que eu pensava. Falei disso pra Jenny, que compôs comigo a letra, e ela compartilhou alguma coisa da vida dela também, e foi o ‘basta’ dessa canção: você precisa ser forte, e não querer mais isso, e não importa o que a pessoa vai achar.”

Na hora [de escrever] é doído, você tem que tirar de você, mas quando você transforma em música, te deixa mais leve.

Esse processo de “colocar para fora” também reverberou na vida pessoal do cantor.  “Foi muito transformador”, contou, “falar sobre o que que tá me afetando, [entender] como que eu posso crescer como pessoa, e ver que é algo que as pessoas se identificam”. 

A revolução da carreira solo

Desde o hiato do NX Zero, Di Ferrero considera que evoluiu em diversos sentidos. “Comecei a compor com pessoas diferentes — numa banda que eu sempre fazia músicas com as mesmas pessoas. É incrível que foi uma história linda, que amo, mas ver outras coisas é muito importante. Eu devia isso pra mim.”

Um dos maiores diferenciais, para ele, é poder fazer parcerias fora do nicho do rock: ao longo dos anos, Di acumulou colaborações em diversos gêneros, desde Thiaguinho, no pagode, até Maneva, no reggae. “Abri muito mais a minha mente para compor. Quando você faz um trabalho solo, [você] tem que pensar em todos os caminhos e sentidos sozinho, então, acabo explorando muito mais e aprendendo muito mais.”

Outra diferença que ele percebe é a possibilidade de explorar a instrumentação, diferente do NX, quando trabalhava apenas com a voz. “Toco guitarra e piano, e explorei mais isso solo”, afirma. 

Lançado em paralelo à turnê SE7E, o novo álbum foi pensado especialmente para funcionar ao vivo. “Tudo é uma desculpa pra tocar lá no palco, ao vivo, todo mundo cantando, aquele momento que você vai levar pra sempre”, celebra. “Eu sempre faço música pensando no ao vivo.”

A pessoa que for no show ou ouvir o álbum e tá num momento incrível da vida, que melhore, inspire. A pessoa que tá numa fase complicada, que ache ali um momento, um gatilho, compartilhe um sentimento. 

Questionado sobre quem são seus principais ídolos, o músico citou Paul McCartney e Chorão. “Eu gostaria de fazer [pelos meus fãs] o que os meus ídolos fazem por mim.”

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