Aos 89 anos, o lendário guitarrista americano fala sobre sua participação em 'Pecadores', seu 9º Grammy e a promessa que fez aos amigos que já se foram: manter o blues vivo
O post Buddy Guy: o patrono do blues que nunca para apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
Há músicos que fazem história. E há Buddy Guy — um que é a história. Nascido em Lettsworth, Louisiana, em 1936, o guitarrista construiu uma das trajetórias mais extraordinárias do blues americano, influenciando gerações inteiras de artistas, de Jimi Hendrix a Eric Clapton, de Stevie Ray Vaughan a John Mayer. Aos 89 anos, com mais de sete décadas de carreira, ele continua se apresentando, gravando e recebendo fãs no seu clube em Chicago, o Legends, como se o tempo simplesmente não se aplicasse a ele.
O ano de 2025 foi um período de renovação para Buddy Guy em mais de um sentido. Em julho, lançou Ain’t Done with the Blues, seu 20º álbum de estúdio, com colaborações de Kingfish, Joe Walsh, Peter Frampton e os Blind Boys of Alabama, e conquistou mais um Grammy — o 9º de sua carreira, sem contar o prêmio de conquista ao longo da vida. A Câmara Municipal de Chicago, ao lado do prefeito Brandon Johnson, ainda aproveitou a ocasião para homenageá-lo com uma resolução oficial reconhecendo tanto o Grammy quanto seus 70 anos de trajetória. E em abril de 2026, Buddy Guy foi ao cinema — literalmente — ao aparecer em Pecadores, o filme de Ryan Coogler que se tornou um dos maiores fenômenos do ano.
É com esse Buddy Guy — cheio de energia, de histórias e de futuro — que a Rolling Stone Brasil* conversou. Ele fala sobre a emoção de ver o blues ganhar o mundo por meio do cinema, sobre a promessa que fez aos amigos que já se foram, sobre os filhos que seguem seus próprios caminhos e sobre o que ainda está por vir. “Se eu te contar, não vai ser surpresa”, ele diz, sorrindo.
2025 foi um grande ano para você, e 2026 começou trazendo ainda mais boas notícias, certo? Em abril, você fez uma participação muito especial no filme Pecadores, grande sucesso de público e crítica, e também nas bilheterias. Como foi, para você, fazer parte desse projeto?
Foi uma bênção. Um sonho realizado, porque incluía o blues. Já tive muitos papéis em documentários e filmes. Eu estive em um filme com Tommy Lee Jones, Às Margens de um Crime.
Assim como você, seu personagem, Samie Moore, tornou-se uma lenda viva do blues. Interpretar esse papel trouxe lembranças pessoais da sua própria trajetória?
Sim, trouxe. Quando saí de casa, meus pais ficaram preocupados, mas eu diria que, no fim, deu tudo certo.
O resultado de Pecadores foi maior do que até as expectativas mais otimistas, não importa por onde se olhe — recorde atrás de recorde, até em indicações ao Oscar. Você concorda que isso ajudou a colocar o blues de volta em evidência para as gerações mais jovens no mundo todo?
Sim. Eu vejo isso cada vez mais e espero que continue.
Você acha que o cinema e outras mídias fora da música tradicional podem ser uma forma eficaz de manter o blues vivo e dar a ele o reconhecimento que merece?
Sim, claro — com certeza. O filme Pecadores prova isso.
Você também lançou Ain’t Done with the Blues, seu 20º álbum de estúdio, em julho de 2025, e ganhou mais um Grammy — o seu nono, se não contarmos o Grammy de Conjunto da Obra (Lifetime Achievement). Para completar, o Conselho Municipal de Chicago, junto com o prefeito Johnson, aprovou uma resolução honorária reconhecendo o nono Grammy de Buddy Guy e sua carreira de 70 anos. Como é ser tão homenageado e celebrado depois de tudo o que você conquistou?
Sou muito grato por ser reconhecido por fazer o que amo.
Você colaborou com Kingfish, Joe Walsh, Peter Frampton e o Blind Boys of Alabama. Como foi trabalhar com artistas tão diversos e talentosos nesse projeto?
Foi uma experiência e uma oportunidade de aprender e apreciar como o blues está relacionado a toda a música.
Há alguma música no álbum que funcione como um ponto de virada emocional ou pessoal para você?
Todas são emocionais para mim. Elas me atingem de formas diferentes. Cada música representa um momento da minha vida… Por isso, eu digo: “Eu ainda não terminei com o blues”.
Você está perto de completar 90 anos e parece — e se sente — cheio de energia e força, entregando coração e alma em cada apresentação, fazendo as pessoas sorrirem, encontrando fãs e tocando com novos talentos e velhos amigos nos seus shows. Em 2023, você anunciou uma turnê de despedida, mas, desde então, tem feito turnês regularmente e até iria para a Austrália em abril. Qual é a fórmula do Buddy Guy para manter esse ritmo?
Amar o que você faz. Descansar, comer direito, e eu apareço no meu clube todas as noites em que estou em casa e aproveito algumas horas com meus clientes e fãs. (Obs.: as apresentações na Austrália foram canceladas por causa da guerra.)
Muitos dos seus colegas do blues já faleceram — e você disse que fez uma promessa a eles de manter o blues vivo. Pode nos contar mais sobre essa promessa e como ela guiou este álbum?
Bem, restam alguns de nós. Temos Willie Nelson e Bobby Rush continuando a cantar blues e ajudando a mantê-lo vivo. Eu acredito que, quanto mais ele for tocado em qualquer área do entretenimento, maiores são as nossas chances de mantê-lo vivo. Pecadores apresentou o blues a outras pessoas que talvez nunca tivessem escutado. Temos alguns músicos de blues mais jovens surgindo para ajudar. Minha promessa é continuar cantando e apoiando o blues.
Você também tem alguns dos seus “filhos” abrindo caminho na indústria da música. Que conselho você daria a Greg Guy, Carlise Guy e Shawana Guy? Além disso, o quanto você se orgulha das conquistas deles?
Tenho muito orgulho. Eu nunca forcei nenhum dos meus filhos a seguir meus passos. Sempre disse a eles: seja o que for que queiram fazer, nunca desistam.
Só de olhar, dá para ver que você estava muito feliz na cerimônia do Oscar. Que sentimentos e pensamentos você teve naquele momento? Como foi ver o blues brilhar assim no mundo todo e ser uma parte tão grande disso?
Um sonho realizado. Isso vai manter o blues vivo.
Em uma nota mais pessoal, com toda essa agenda corrida, você ainda encontra tempo para cozinhar como antes? Ainda podemos contar com um gumbo, feijão vermelho e pão de milho?
Sim — eu não consigo ficar sem isso. Você está sempre convidado a participar da refeição.
Qual é a próxima surpresa do Buddy Guy que podemos esperar?
Se eu contar, não vai ser surpresa (risos) — mas espero que, com mais música saindo, ela também seja usada e ouvida por um público ainda maior.
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