Uma série de casos em um cruzeiro no Ártico deixou o público em busca de informações sobre o vírus raro, porém mortal
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Nos últimos dias, o mundo acompanhou o surto de hantavírus em um navio de cruzeiro no Oceano Atlântico, que atualmente transporta cerca de 100 passageiros. Até o momento, o vírus raro, porém mortal, deixou cinco pessoas doentes e três mortas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Desses casos, cinco foram confirmados como sendo de hantavírus — incluindo pelo menos um dos falecidos — e três são suspeitos.
Graças à divulgação caótica de informações pela OMS, pela empresa de cruzeiros (Oceanwide Expeditions) e por um influenciador de viagens (parceiro da empresa), tem sido difícil acompanhar a situação e verificar a veracidade das informações. Além disso, as políticas do governo Trump — como a saída da OMS — estão mantendo os EUA à margem da investigação global em curso sobre o surto.
Então, o que exatamente está acontecendo a bordo do navio? Quão preocupados devemos estar com o surto? E o que os roedores têm a ver com isso? Bem, preparem-se: é hora de nos tornarmos especialistas em mais um vírus, mesmo que temporariamente.
O que realmente aconteceu no cruzeiro?
O MV Hondius, um navio explorador polar registrado na Holanda, partiu de Ushuaia, Argentina, em 1º de abril, com 114 passageiros e a tripulação a bordo, com planos de visitar a Antártica e ilhas remotas do Atlântico Sul em um cruzeiro de várias semanas.
Seis dias após o início da viagem, um passageiro de 70 anos adoeceu com febre, dor de cabeça e diarreia. Ele faleceu em 11 de abril. O navio levou quase duas semanas para atravessar o Atlântico Sul e chegar à ilha de Santa Helena, um território ultramarino britânico, que era “o primeiro local possível onde esse passageiro poderia desembarcar para repatriação”, disse um representante da empresa à Rolling Stone. Quando atracou, em 24 de abril, o corpo do falecido foi retirado do navio. Sua esposa também desembarcou, apresentou imediatamente sintomas gastrointestinais e faleceu dois dias depois.
Juntamente com o casal, 28 passageiros também desembarcaram do cruzeiro em Santa Helena e retornaram para seus países de origem: Canadá, Dinamarca, Alemanha, Holanda, Nova Zelândia, São Cristóvão e Névis, Singapura, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos.
Também no dia 24 de abril, um passageiro adulto do sexo masculino começou a apresentar sintomas de pneumonia. Ele foi evacuado para a África do Sul em 27 de abril, onde está atualmente internado em uma Unidade de Terapia Intensiva. No dia 2 de maio, exames confirmaram que ele havia contraído hantavírus. Outro passageiro a bordo do MV Hondius faleceu naquele mesmo dia, embora a causa da morte pareça ter sido pneumonia.
Em 4 de maio, os passageiros que desembarcaram em Santa Helena receberam um e-mail da Oceanwide Expeditions, companhia de cruzeiros holandesa que operava o navio, notificando-os de que haviam sido expostos ao hantavírus, segundo um representante da empresa. Mas, a essa altura, eles já haviam viajado para destinos ao redor do mundo, potencialmente levando o vírus consigo.
Quando alguém contrai uma infecção por hantavírus, os sintomas podem demorar de uma semana a dois meses para aparecer. Isso significa que os passageiros podem não apresentar sintomas por várias semanas, afirma Kirsten Lyke, médica especialista em doenças infecciosas e professora de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Maryland.
De acordo com Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, é possível que mais casos de hantavírus ligados ao navio de cruzeiro sejam relatados, mas o surto não é motivo para alarme. “Embora este seja um incidente grave, a OMS avalia o risco para a saúde pública como baixo”, disse em coletiva de imprensa nesta quinta, 7. “Nossas prioridades são garantir que os pacientes afetados recebam atendimento, que os demais passageiros a bordo sejam mantidos em segurança e tratados com dignidade, e prevenir qualquer propagação adicional do vírus.”
Neste momento, não está claro exatamente como o hantavírus chegou a bordo do MV Hondius. “Isso vai exigir um pouco de investigação”, disse Lyke à Rolling Stone. “A hipótese mais aceita agora é que o primeiro caso identificado, um casal, estava na Argentina e pode ter sido exposto durante uma caminhada ou outra atividade turística, levando o hantavírus para o navio, onde ele poderia se espalhar de pessoa para pessoa.” (A Argentina tem a maior incidência de hantavírus na América Latina.) Outra possibilidade é que o vírus tenha sido transmitido por ratos no navio, explica ela, já que as pessoas podem contraí-lo após entrar em contato com urina, fezes ou saliva de roedores.
O que é o hantavírus?
O hantavírus normalmente se espalha de roedores para pessoas, mas a cepa específica que está infectando os passageiros do cruzeiro, de acordo com a OMS — a cepa dos Andes — é a única que também pode ser transmitida de pessoa para pessoa.
No início de uma infecção por hantavírus, a pessoa provavelmente apresentará sintomas leves semelhantes aos da gripe, seguidos por problemas respiratórios, como falta de ar. “Ela pode não estar tossindo, mas gradualmente, terá cada vez mais dificuldade para respirar, o que pode levar ao choque e afetar outros órgãos”, diz Lyke. Quando as pessoas morrem de infecção por hantavírus, geralmente é devido à insuficiência respiratória e à incapacidade de obter oxigênio suficiente, explica a médica.
Ela suspeita que os passageiros e a tripulação do MV Hondius terão que ficar em quarentena no navio até que se completem oito semanas desde a transmissão ativa, ou até que a última pessoa doente seja retirada do navio. Ann Lindstrand, representante da OMS em Cabo Verde, confirmou que uma possível quarentena pode durar até dois meses, acrescentando: “oito semanas é um período terrivelmente longo para ficar em quarentena”.
A Oceanwide Expeditions não está fornecendo detalhes sobre a duração da quarentena dos passageiros. “Não podemos confirmar os detalhes da viagem subsequente dos hóspedes neste momento”, disse a empresa em um comunicado à imprensa. Na sexta-feira, 8, a AP noticiou que o navio estava a caminho das Ilhas Canárias, onde “chegará a uma área completamente isolada e protegida”, segundo Virginia Barcones, chefe dos serviços de emergência da Espanha.
Atualmente, não existe tratamento para o hantavírus — apenas cuidados de suporte. “Houve algumas tentativas experimentais com diferentes antivirais, mas elas não deram muito certo”, diz Lyke. “É incrivelmente difícil estudar esses vírus, porque eles não são comuns e não é possível expor as pessoas a esse tipo de vírus.”
O hantavírus tem uma taxa de mortalidade muito alta — até 50% nas Américas, segundo a OMS.
Qual será o impacto da saída dos Estados Unidos da OMS sobre o surto?
A saída dos Estados Unidos da OMS, que entrou em vigor em janeiro, colocou as autoridades de saúde pública americanas em desvantagem, afirma David Larsen, professor e chefe do departamento de saúde pública da Universidade de Syracuse. Isso significa que especialistas em hantavírus do CDC não estavam entre os primeiros envolvidos na investigação do surto. “Não é o ideal não estar a par dos surtos de doenças infecciosas”, disse à Rolling Stone. “Participar da resposta ao surto é muito diferente de receber informações da OMS que são enviadas ao público.”
A saída da OMS também significa que os EUA não têm mais acesso aos bancos de dados de vigilância da organização.
Normalmente, leva algum tempo para que as primeiras informações de uma investigação de surto sejam divulgadas, pois as equipes de relações públicas e vários governos precisam aprová-las primeiro. Os envolvidos em uma investigação recebem essas informações imediatamente e podem compartilhá-las mais rapidamente com as autoridades de saúde pública de seu país. “Não é bom para os americanos que haja um surto de uma doença infecciosa para o qual não possamos ir pessoalmente, porque isso nos torna menos seguros”, diz Larsen.
Cumprindo sua promessa de “dar um descanso às doenças infecciosas”, em abril de 2025, o Secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., cortou drasticamente o orçamento do Programa de Saneamento de Embarcações (VSP) do CDC, responsável por investigar surtos, realizar inspeções sanitárias em navios de cruzeiro e treinar funcionários em práticas de saúde pública. Como resultado, todos os funcionários em tempo integral do VSP perderam seus empregos — apesar de o programa não ser financiado com dinheiro dos contribuintes.
Isso deixa os navios de cruzeiro americanos vulneráveis caso ocorra um surto semelhante em uma embarcação proveniente dos EUA, afirma Larsen. “Não se pode desmantelar uma agência e esperar que ela continue funcionando”, explica. “O CDC tem uma missão clara: proteger o povo americano de ameaças de doenças infecciosas. Uma parte fundamental dessa missão é entender onde estão as ameaças de doenças infecciosas e, então, ser capaz de respondê-las.”
Outra função do VSP era cooperar e coordenar com cientistas em outras partes do mundo. “Nossas relações com outros países não são nada saudáveis”, diz Larsen. “Se não houver o mesmo nível de cooperação e compartilhamento, nossa segurança diminui.”
Essa falta de supervisão também é preocupante porque os navios de cruzeiro são “locais vulneráveis”, segundo Larsen. “Se não podemos fazer um cruzeiro porque estamos preocupados com surtos de doenças infecciosas — porque não há ninguém lá para inspecionar essas embarcações e garantir que tudo esteja funcionando bem — isso é uma falta de liberdade”, afirma.
Precisamos nos preocupar com o hantavírus?
Autoridades de saúde pública nos EUA estão monitorando os passageiros que retornaram do cruzeiro em 24 de abril, em cinco estados: Geórgia, Texas, Virgínia, Arizona e Califórnia. Até o momento, nenhum deles apresenta sintomas do hantavírus, segundo as respectivas autoridades.
Embora o hantavírus não seja tão contagioso quanto o sarampo, por exemplo, Lyke afirma que é possível que ele se espalhe de forma limitada. “Não sabemos muito sobre a exposição”, diz. “Presumivelmente, ele se espalha por secreções respiratórias — estar em um ambiente com alguém infectado por um período de tempo pode ser suficiente. Acredito que quanto mais próximo e prolongado o contato, maior a probabilidade de exposição.”
Em média, as pessoas infectadas com o vírus Andes geralmente infectam menos de uma outra pessoa . Em contraste, uma pessoa infectada com o SARS-CoV-2 pode, em média, infectar de 15 a 20 outras pessoas.
Independentemente desse surto, existe também uma cepa de hantavírus nos Estados Unidos conhecida como vírus Sin Nombre , encontrada na região dos Quatro Cantos (Arizona, Colorado, Novo México e Utah). Essa é a cepa que matou a esposa de Gene Hackman, Betsy Arakawa, em fevereiro de 2025.
Nos Estados Unidos, as pessoas contraem hantavírus com mais frequência quando fazem trilhas no Novo México e se hospedam em cabanas de madeira, diz Lyke. “Estamos sempre dizendo às pessoas para serem extremamente cuidadosas”, observa. “Aerie a cabana ou qualquer outra área fechada com roedores. Você também pode usar máscara e varrer o local.”
No geral, porém, o hantavírus é “muito incomum”, de acordo com Lyke. De 1993 a 2023, foram relatados 890 casos de hantavírus nos Estados Unidos. “Este é um daqueles casos isolados que causam um certo sensacionalismo, são um pouco incomuns, e não acho que as pessoas precisem se preocupar”, diz.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, autoridades da OMS enfatizam que não há motivo para pânico. “Quero ser inequívoca: isto não é SARS-CoV-2”, disse Maria Van Kerkhove, diretora interina do departamento de gestão de epidemias e pandemias da OMS, em coletiva de imprensa. “Este não é o início de uma pandemia de Covid. Trata-se de um surto que estamos observando em um navio. Há uma área confinada. Temos cinco casos confirmados até o momento. Esta não é a mesma situação em que nos encontrávamos há seis anos.”
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