Músico reflete também sobre a morte do baterista Brit Turner e os 25 anos da banda: 'agora entendo como Allman Brothers e Lynyrd Skynyrd continuaram'
O post Charlie Starr fala à RS sobre Blackberry Smoke no Brasil, southern rock e influências apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
Charlie Starr é, definitivamente, um músico que gosta de falar sobre música. Pode parecer redundante, mas nem sempre é o caso. Muitos se esquivam quando a conversa deságua em gêneros, influências e no exercício de categorizar a própria obra. O vocalista, guitarrista e líder do Blackberry Smoke, não.
Instigado a explicar ou tentar definir que tipo de som sua banda pratica, ele evoca Gregg Allman — que renegava o termo “southern rock” —, mas só para oferecer contexto histórico. Ao contrário do saudoso ícone da Allman Brothers Band, Charlie não tem maiores ressalvas em abraçar o rótulo.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, diz:
“Eu aceito southern rock. As pessoas nos descrevem assim desde o começo. Para mim está tudo bem porque pinta uma imagem com a qual não tenho qualquer problema, por causa das bandas que vieram antes de nós. Embora alguns deles não gostassem, como o Gregg Allman, que notadamente disse: ‘Eu não gosto disso, não faz sentido. Todo rock é sulista’. Mas, de modo geral, eu entendo e aceito. É um tipo único de vibração.”
Uma vibração que o Blackberry Smoke soube capturar e revigorar. Não à toa a banda de Atlanta, na Geórgia, é merecidamente citada como principal expoente do rock feito no Sul dos Estados Unidos nos últimos 25 anos. Por duas vezes, o grupo já chegou ao 1º lugar na parada de álbuns “Country” da Billboard e forjou com The Whippoorwill (2012) um verdadeiro clássico moderno do estilo.
Em 2019, o Blackberry Smoke tocou no Brasil pela primeira vez e agora retorna celebrando um quarto de século — a banda nasceu em 2001. Ao mesmo tempo que comemora “bodas de prata”, o grupo ainda remói a morte do baterista e membro fundador Brit Turner em 2024, vítima de glioblastoma, o tipo mais agressivo de câncer no cérebro.
De sua casa em Atlanta, Charlie Starr falou sobre luto, a decisão de seguir em frente e como a tragédia o fez entender ainda mais o espírito de sobrevivência de Lynyrd Skynyrd e Allman Brothers Band, além dos planos para um disco novo. Confira!
Volta ao Brasil
Há sete anos, o Blackberry Smoke estreou no Brasil se apresentando em Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Agora eles mantêm essas três cidades e acrescentam mais uma: Belo Horizonte.
Os shows já acontecem nesta semana. Veja datas e locais:
— 08/04 (quarta-feira): Porto Alegre (Urb Stage)
— 10/04 (sexta-feira): Belo Horizonte (Mister Rock)
— 11/04 (sábado): São Paulo (Audio)
— 12/04 (domingo): Curitiba (Tork n’ Roll)
A despeito da pandemia, da morte de Brit Turner e de outros eventos que impactaram na percepção do tempo, Charlie Starr diz se lembrar muito bem da recepção calorosa em 2019 e que não vê a hora de repetir a dose:
“Bem, espero me divertir muito. Julgando pela minha experiência da última vez… Você disse que foi há sete anos? Eu não esqueci, foi incrível. Então acho que estamos ansiosos por isso. Lembro-me da empolgação do público, antes de tudo. Porque não sabíamos o que esperar, ou eu não sabia, da última vez. Sendo nossa primeira visita, fiquei impressionado com o fato de as pessoas saberem as letras de todas as músicas e estarem cantando tão alto. Eu não poderia ter pedido uma experiência melhor.”
Na época, o Blackberry Smoke divulgava o álbum Find a Light (2018). Agora, a banda está na estrada celebrando 25 anos de história, o que irá resultar em um setlist mais abrangente, segundo Charlie.
Pela importância que tem no catálogo do grupo, The Whippoorwill certamente será o disco mais contemplado. Vêm dele clássicos como “Pretty Little Lie”, “One Horse Town” e “Ain’t Much Left of Me”. No entanto, o repertório vai ser vasto e completo, digno da recém-lançada Rattle, Ramble & Roll: The Best of Blackberry Smoke – Volume One (2025), primeira coletânea deles.
Charlie comenta:
“Bem, este é o nosso 25º aniversário. Então provavelmente tocaremos uma seleção mais ampla de material porque estamos meio que celebrando tudo. Sabe, da última vez estávamos em turnê de um álbum específico, pode-se dizer. Então desta vez esperamos tocar as favoritas de todos, se pudermos.”
Morte de Brit Turner
Além de celebrar 25 anos da banda, a coletânea também é uma homenagem ao legado do baterista Brit Turner. De acordo com Charlie Starr, todos ainda estão se adaptando à vida sem ele, principalmente o baixista Richard Turner, irmão de Brit.
“Ainda é muito surreal. Todos os dias eu penso: ‘uau, não acredito que ele não está aqui’. Já faz três anos. Kent Aberle, nosso baterista atual, faz um trabalho fantástico. Ele e o Brit eram muito próximos, então parece correto o que estamos fazendo agora. E nós continuamos. O Brit e eu trabalhamos muito desde o início desta banda para torná-la o que é. E ele nunca ia querer que parasse. Ele era obcecado pelo trabalho. Então todos os dias eu penso: ‘bem, vou fazer o que ele faria’, que é continuar trabalhando.”
Sobre a decisão de continuar com o Blackberry Smoke, Charlie acrescenta:
“Foi uma decisão da qual ele fez parte quando começou a declinar em termos de saúde. O Kent veio para a estrada conosco e tocava quando o Brit não podia. Mas ele queria… era a vida dele, a paixão dele, assim como é a nossa. E realmente me fez entender. Quando ele morreu, eu pensei: ‘agora entendo como bandas como Allman Brothers Band e Lynyrd Skynyrd continuaram’. Eu entendo a situação deles mais agora. Antes eu pensava: ‘uau, os Allman Brothers tocaram no funeral do Duane Allman, na casa funerária. Isso é loucura’. Eu não sei se conseguiria fazer isso, mas entendi que é isso o que sabemos fazer. É a nossa vida. E eu entendi: é isso que se faz. Você continua.”
O disco de estúdio mais recente do Blackberry Smoke é Be Right Here (2024), lançado um mês antes da morte de Brit Turner. Charlie conta que o baterista já tinha tido um susto antes de gravá-lo, pois sofreu um pequeno infarto, mas que o diagnóstico de câncer só veio após a conclusão do álbum.
“Ele estava com boa saúde no último álbum. Ele ainda não tinha o diagnóstico de câncer. Na verdade, ele tinha tido um ataque cardíaco antes de começarmos o álbum, o que foi assustador, claro. Foi uma sequência louca de eventos: ele teve um ataque cardíaco, tínhamos voltado da estrada por dois dias, ele foi para o hospital e sobreviveu. Disseram: ‘você tem muita sorte’. E ele dizia: ‘preciso cuidar melhor de mim, estamos ficando velhos, preciso de uma dieta melhor e me exercitar mais’, todas essas coisas. Então, quando fomos gravar o álbum, ele estava recuperado e se sentindo muito bem. Acho que ele tinha uma nova perspectiva na época, tipo: ‘ok, agora a vida parece ainda mais preciosa’. E infelizmente, logo depois de terminarmos o álbum, foi quando ele recebeu o diagnóstico do tumor cerebral.”
Disco novo
Desta forma, o próximo trabalho do Blackberry Smoke será o primeiro sem contribuições de Brit Turner. Num primeiro momento, Kent Aberle assumiu apenas como baterista de turnê, mas agora está incorporado à formação e gravará o sucessor de Be Right Here.
Charlie atualiza sobre o processo de composição:
“Tenho muitas músicas escritas, fiz muitas demos. Tenho pensado muito nisso. Provavelmente entraremos em estúdio em algum momento deste ano para começar o novo álbum. Eu queria esperar até que parecesse o momento certo. Agora que estamos tocando tanto na estrada, e o Kent toca tão bem e de forma parecida com o Brit — ele toca para a música —, então sinto que é hora de fazer outro álbum.”
Alguma pista de como ele irá soar?
“Não sei. Nunca sei até chegarmos lá (estúdio).”
Southern rock
Fato é que os fãs já sabem muito bem o que esperar do Blackberry Smoke. Ao longo dos oito álbuns de estúdio lançados até o momento, a banda fez algumas pequenas variações, mas sempre dentro de um escopo que engloba: rock, blues, country e outros tipos de música tradicional dos Estados Unidos.
Ao refletir sobre sua própria sonoridade, Charlie afirma:
“Eu diria que somos uma banda de rock and roll do sul que ama muitos tipos diferentes de música. Amamos bluegrass, country tradicional, jazz, blues e gospel. Mas eu diria que, acima de tudo, é um som honesto. É música baseada em guitarras, as letras são honestas e não são difíceis de entender. E aposto que também podemos fazer você dançar.”
Mais do que aceitar o rótulo de “southern rock” para sintetizar esse caldeirão de influências, Charlie reitera que a base do som do Blackberry Smoke vem justamente dessa escola, em especial de Lynyrd Skynyrd.
Nos shows atuais, a banda inclusive vem tocando no encore o cover de “Poison Whiskey”, clássico do primeiro disco do Skynyrd, (Pronounced ‘Lĕh-‘nérd ‘Skin-‘nérd), de 1973.
O músico revela como foi impactado por essa e outras canções da banda:
“Massivamente. Quando eu era criança no sul, o rádio tocava muito essas bandas: Skynyrd, Marshall Tucker Band, Molly Hatchet, CharlieDaniels, Allman Brothers, Blackfoot. Minha formação musical foi influenciada por isso logo cedo. E eu amava, e ainda amo. Ao mesmo tempo, eu gostava muito de Led Zeppelin, Black Sabbath, Aerosmith, Stonese Beatles. Mas nenhuma foi mais importante que o Skynyrd. Eu ainda posso colocar um disco do Skynyrd hoje e ouvir inteiro. É uma música muito importante para mim.”
Nem mesmo Allman Brothers e a guitarra de Duane Allman estariam no mesmo patamar?
“Humm…. É difícil escolher um favorito. Eu amo toda essa música e elas são diferentes entre si. Allman Brothers não soa como Skynyrd, que não soa como Charlie Daniels. É tudo muito variado. O que existe é uma impressão digital em termos de som, digamos.”
Charlie complementa:
“Acho que você pode ouvir isso nos vocais, e a maneira como tocamos guitarra é muito específica. Tudo vem do blues e de muito country tradicional e ‘hillbilly music’ (algo como ‘música caipira’, em inglês). É de lá que nossa música vem, então acho que dá para ouvir isso.”
Debate sobre “o homem do sul”
Em 2021, o Blackberry Smoke lançou You Hear Georgia, disco que exalta sua terra natal, suas raízes e certas tradições sulistas. No entanto, Charlie Starr não se furta a comentar também outros aspectos — mais sombrios, digamos — dessa região.
Na Guerra Civil Americana (1861-1865), os estados do Sul, representados pela Confederação (ou Confederados), queria preservar a escravidão negra e de afro-americanos. Por conta desse histórico, na década de 1970 o canadense Neil Young escreveu canções — “Southern Man” e “Alabama” — que criticavam o “racismo” sulista. Ao que o Lynyrd Skynyrd respondeu com “Sweet Home Alabama”, cuja letra diz: “Eu ouvi o Sr. Young cantar / Bem, eu ouvi o velho Neil criticar / Bem, espero que Neil Young se lembre / Que um homem do Sul não precisa dele por perto de maneira alguma”.
Tendo nascido justamente em 1974, ano do lançamento de “Sweet Home Alabama”, Charlie Starr cresceu em meio a esse debate. Indagado a respeito da mentalidade sulista e do que seria esse “homem do Sul” hoje, o músico oferece um ponto de vista pessoal, partindo da perspectiva de sua criação:
“Mudou muito desde o início do país. Para mim, vindo do Sul, sempre houve muita religião envolvida — houve na minha vida e na de quase todos de onde eu venho. Você vai à igreja, seus pais te ensinam bons modos, a dizer ‘sim senhor’, ‘não senhora’, ‘obrigado’. É um sentimento. Existe também o termo ‘hospitalidade sulista’. Na minha criação, não havia ódio. Havia compreensão e música. Tentamos ensinar tolerância aos nossos filhos para que sejam homens e mulheres tolerantes.”
Ele acrescenta, falando sobre preconceito e a importância de se combater o racismo:
“Não acho que seja pior no Sul agora do que em qualquer outro lugar. Acho que há preconceito em todos os lugares. O Sul tem uma história bem feia em relação à nossa Guerra Civil, mas aprendi quando comecei a viajar que existe ódio em todos os lugares. Você encontra pessoas ruins em qualquer lugar, mas também encontra pessoas boas. Acho que o Sul dos Estados Unidos trabalhou duro ao longo dos anos para tentar limpar isso e se tornar um lugar melhor.”
Outras influências
Apesar de liderar, juntamente com Tedeschi Trucks Band e Marcus King, o renascimento moderno do southern rock, as influências do Blackberry Smoke não param por aí, garante Charlie Starr.
Todos na banda são fascinados, por exemplo, por Rolling Stones. Em 2021, na ocasião do Record Store Day, eles lançaram um EP de covers da banda britânica, intitulado Stoned.
Charlie dá uma geral na paleta de artistas e estilos que o moldaram:
“Bem, eu amo bluegrass: Bill Monroe, Stanley Brothers, Flatt & Scruggs. Amo country tradicional: Hank Williams, George Jones, Lefty Frizzell. Little Feat, Zeppelin, Sabbath, Aerosmith, AC/DC. Amo jazz: Wes Montgomery, Charlie Christian, Grant Green, Miles Davis, John Coltrane. Qualquer coisa boa. Amo Ramones, Sex Pistols, Johnny Thunders, New York Dolls, The Replacements, NRBQ.”
Espera aí. Replacements, grupo de punk/hardcore precursor do indie/rock alternativo?
“Sim! (risos) Replacements, Soul Asylum, Hüsker Dü. Todos eles vieram de Minneapolis. Amo também Otis Redding, WilsonPickett, MarvinGaye, AlGreen. E amo blues: CharleyPatton, Robert Johnson, SonHouse, Mississippi FredMcDowell. Eu poderia continuar falando o dia todo.”
Para não se alongar tanto, Charlie conclui a entrevista convocando os fãs brasileiros a conferirem de perto esse leque de influências. Vale citar que, quando não toca “Poison Whiskey”, do Lynyrd Skynyrd, a banda já optou recentemente por executar outros covers, tais como “Dancing Days” (Led Zeppelin), “Jailbreak” (Thin Lizzy) e “Run With the Pack” (Bad Company).
Qual ou quais estarão nos shows do Brasil? Charlie não antecipa, mas deixa o convite:
“Eu diria que faz muito tempo desde que estivemos aí. Desculpe por demorar tanto para voltar. Mal posso esperar para ver os rostos sorridentes e ouvir vocês cantando de novo.”
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