Bemti une tradição e modernidade em ‘Adeus Atlântico’, álbum que redefine os limites da viola caipira

Escrito em 20/03/2026
Kadu Soares (@soareskaa)

Terceiro disco do mineiro que se apresenta no Blue Note em 15 de abril é sofisticado manifesto pop que atravessa continentes sem perder as raízes

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Bemti

No dia 15 de abril, Bemti sobe ao palco do Blue Note São Paulo pro Rolling Stone Sessions, e quem for vai testemunhar algo raro: artista que, como poucos, consegue transformar viola caipira em instrumento pop sem soar forçado, sem perder autenticidade. Adeus Atlântico, o terceiro álbum do mineiro de Serra da Saudade, é prova de que tradição e modernidade não precisam brigar — podem conversar, trocar ideias, criar algo novo junto. Gravado entre Brasil, Portugal e Inglaterra, o disco é indie pop sofisticado construído sobre base de viola de dez cordas turbinada com pedais de distorção.

Bemti começou na banda Falso Coral e lançou dois discos solo antes deste — era dois (2020) e logo ali (2021). Ambos já mostravam artista interessado em expandir o que viola caipira pode fazer, mas sempre com tom introspectivo, melancólico, intimista. Adeus Atlântico é diferente. É objetivamente mais solar, mais vibrante, mais pop.

As dez faixas autorais do álbum transitam por indie pop, alt-folk, soft rock oitentista, house, até amapiano sul-africano — tudo filtrado através da viola. Ele usa pedais de drive e distorção pra fazer o instrumento soar como guitarra, como violão de 12 cordas, como central de efeitos. E nos shows da turnê, estreia a Viola-Guitarra, um híbrido customizado de viola caipira com guitarra Les Paul que pode ser único no mundo.

“Lua em Libra”, com Marissol Mwaba (brasileira de origem congolesa que mora em Paris e estuda astrofísica), mistura percussões mineiras com beats eletrônicos sobre uma letra que ironiza astrologia enquanto usa signos como metáfora pra imprevisibilidade emocional. “Euforia”, com Luar nos vocais e FBC no rap, é um soft rock que lembra Paralamas do Sucesso mas soa completamente contemporâneo. E “Metal”, a sétima faixa, é o momento mais experimental, com referência a Radiohead e Milton Nascimento disfarçadas de canção sobre mineiridade, com uma surpresa melódica no final que desarma qualquer expectativa. A produção é sofisticada sem ser estéril, cheia de detalhes que revelam camadas novas a cada audição.

O álbum funciona também como manifesto geográfico e político. Bemti compôs entre três países, e cada música carrega cartografia própria — “Miragem” traz Alex D’Alva, angolano radicado em Portugal; “Quase sertão” une Bemti ao mineiro Haroldo Bontempo; e faixa-título é dream folk que evoca travessias atlânticas. É disco sobre lusofonia, sobre origens da viola caipira ligadas à África através do Atlântico, sobre Minas e mundo conversando.

Adeus Atlântico é álbum corajoso e necessário. Prova que MPB pode dialogar com indie pop global sem virar cópia mal feita de tendências gringas. Mostra que viola caipira tem futuro além de nostalgia sertaneja. E estabelece Bemti como nome importante da música brasileira contemporânea — artista que entende tradição mas não se prende nela, que admira exterior mas não abandona raízes. Adeus Atlântico soa como futuro da música brasileira e quem for ao Blue Note dia 15 de abril vai entender por quê.

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