Modelo há 23 anos lança EP sobre separação durante pandemia, prepara show no Blue Note e revela novo álbum Crochê para abril: "A arte proporciona a possibilidade de ressignificar"
O post Barbara Fialho estreia no Blue Note e anuncia álbum Crochê: ‘Quero viver a vida leve’ apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil.
Dois meses sem sair de casa. Separação recente. Pandemia no auge. Contratos de trabalho sumindo. Barbara Fialho estava presa — não só pela quarentena, mas pela dor de um divórcio que, em outras circunstâncias, talvez tivesse superado mais rápido. “A pandemia forçou a gente a ir mais pra dentro e pensar nas coisas que a gente tava vivendo de fato na época”, ela conta em entrevista nos estúdios da Rolling Stone Brasil. Foi nesse cenário claustrofóbico e emocionalmente devastador que começou a escrever. Primeiro como diário. Depois como música. E quando percebeu, tinha um disco inteiro nas mãos.
CRAZX (2025) nasceu assim, na sobrevivência. “Eu falei: ‘Meu Deus, eu preciso fazer alguma coisa’. Aí liguei pros meus amigos, produtores musicais que eu amo”. Juntou todo mudo. Testes de COVID, muito cuidado, estúdio com protocolo. Gravar virou a hora de se arrumar pra sair de casa. Virou remédio. “Ele foi inspirado em tentar superar algo que foi difícil de uma forma bonita, numa situação extremamente difícil. A arte faz isso pra gente — proporciona a possibilidade de ressignificar.”
Agora, meses depois, Barbara está prestes a estrear no Blue Note — uma das casas que ela mais admira pela qualidade do som e pelo cuidado com o músico. O show acontece no dia 11 de março e vai misturar as músicas que ela já lançou com grandes sucessos da música brasileira e faixas inéditas de Crochê, seu próximo álbum, previsto pra abril.
A história poderia ter sido outra. Antes da pandemia, Barbara tinha assinado contrato com a Globo pra participar de um quadro na emissora, onde ia representar Ney Matogrosso (“um dos maiores ídolos, fico muito sem jeito na presença dele”), Paula Toller (“voz doce, presença elegante no palco”), Alcione (“impossível, mas eu amo”), Vanessa da Mata. Estudou melodias, mergulhou nos personagens, estava empolgada. Aí veio a pandemia e cancelou tudo.
“Eu tava cantando muito na época e comecei a pegar algumas anotações, achar melodia.” O que era pra ser um projeto de TV virou disco autoral. “Eu poderia ter ficado em casa triste porque o projeto não aconteceu. Mas fui lá e fiz um disco acontecer.” Transformou frustração em criação. Pegou toda aquela energia criativa — que ia pra representar outras artistas — e direcionou pra contar a própria história. “Foi muito bom.”
E a vontade de fazer acontecer era tanta que superou todos os obstáculos. “A pandemia freou vários projetos de várias pessoas. A gente passou e nem falou muito sobre o assunto, só foi.” Mas Barbara não deixou. Reuniu os produtores que admira, montou esquema seguro e gravou. Na sobrevivência, mas gravou.
Entre tudo isso, um casamento em inglês
A primeira coisa que chama atenção em CRAZX é o idioma. Quatro das cinco faixas são em inglês — escolha que faz todo sentido quando Barbara explica: “Eu vivi um casamento em inglês. Imagina. Ele só fala em inglês. Então minhas DRs eram em inglês.” As discussões, os desabafos, as tentativas de resolver, tudo acontecia numa língua que não era a dela. Fazia sentido que o disco também fosse.
O EP funciona como uma série de cartas. Quatro fases do desamor: tristeza, raiva, ironia e aceitação. Cada música representa um estágio. “Crazx” é o desabafo cru. “Pop Up” é a postura restaurada, a dignidade recuperada. “Show Off” é o retrato ácido de um parceiro que vive de aparências. “God Bless” é a aceitação silenciosa, quase espiritual. E então vem “Maria”, a única em português.
“Maria é o que fica. É o amor da minha vida, da vida dele também. Ela fica em português porque ela é brasileira, fala português. E a parte doce de tudo que a gente viveu é ela.” A filha como redenção. Como luz no fim do túnel. Como motivo pra seguir. “É um reggae português, brasileira, jamaicana, tem essa energia.”
Um dia, Maria vai crescer e entender a mensagem por trás. Barbara não tem medo disso. “Eu acho que ela vai ficar orgulhosa, porque eu falo de uma forma muito humana. Nada no disco fala mal de ninguém ou é um diss song. São músicas que contam minha experiência.” Ela reforça a importância de mulheres se permitirem contar suas histórias. “A gente fica morrendo de medo: ‘Ai, eu vou me pronunciar, vou falar…’ Desde que você não cause algo ruim entre a relação do pai e a criança, é importante se pronunciar.”
E a relação entre Maria e o pai está intacta. “Maria é apaixonada pelo pai, alucinada, ama ele, ele ama ela. Nenhuma das minhas ações afetou essa relação. E isso é o mais importante.”
EP curto, vida longa
Por que fazer um EP e não um álbum completo? Porque Barbara queria mudar de assunto. Rápido. “Eu tava lidando com esse processo que demorou muito mais. Foi um sofrimento prolongado. Se não fosse a pandemia, se eu não tivesse tão presa, eu teria passado por aquilo. Então o disco tinha que ser o oposto da sensação.”
Ela esperou pra lançar. Escreveu o disco, guardou, só soltou quando já tinha tudo certo. “Eu não fico reclamando na internet, nunca dei entrevista sobre o assunto. Eu sempre falo: foi um divórcio difícil. É difícil pra todo mundo. Não contei nenhuma novidade.” Falar de forma leve e rápida era estratégia. Porque logo viria Crochê, que fala de coisa boa. De amores felizes, bons encontros, essência brasileira.
Antes de CRAZX, ela lançou o projeto Fênix — três músicas produzidas pelo DJ Cia. Juntando, são oito músicas que poderiam ser um projeto só, mas ela preferiu dividir. “Como são três produções do DJ Cia, eu queria que saíssem como singles juntas. Depois CRAZX, que é menor. Agora vem Crochê, que tem 11 músicas.”
E tem outro detalhe: o processo judicial só terminou recentemente. “Tem muita coisa que ninguém sabe, que fica meio que… que eu também não sei. É esquisito falar de novo depois de tanto tempo, mas ao mesmo tempo eu só saí do processo agora.” Então lançar CRAZX era também fechar um ciclo de verdade. Oficialmente.
Crochê!
O próximo capítulo se chama Crochê. Onze músicas, todas em português, muita percussão brasileira, muita essência. É homenagem à mãe de Barbara, crocheteira fantástica. “É a metáfora do que é o crochê — uma coisa que passa de mãe pra filha, você vai aprendendo e possibilita muitas coisas.”
O crochê está em tudo na trajetória dela: “Eu sempre vesti muito por causa da minha mãe. O crochê faz parte de toda essa jornada”. E é também sobre origem. Mãe baiana (do Sul da Bahia), pai mineiro. Essa mistura que forma quem ela é. “As culturas são parecidas, principalmente minha mãe que é do Sul da Bahia, que se mistura com Minas Gerais.” É sobre voltar pras raízes depois de anos morando fora. Barbara morou três anos em Tiradentes — “foi um sonho” — e mergulhou na brasilidade de novo. Crochê é fruto disso. O álbum tá quase pronto. Falta finalizar as partes percussivas.
Mas antes, um show especial no Blue Note
Falar do Blue Note deixa Barbara visivelmente empolgada. “Sempre sonhei em tocar no Blue Note. Quando vi o banner, falei: ‘Esse eu vou guardar pra Maria’.” É uma das casas que ela mais admira — foi várias vezes em Nova York, assistiu artistas que ama. E agora vai tocar lá.
A expectativa é tanta que ela já está mergulhando nos detalhes possíveis e impossíveis. Cenário, pedestal do microfone, figurino, como os meninos da banda vão estar. “Não paro de pensar no que vou levar no dia. Se levo pão de queijo pros meninos, quem vai levar as garrafas de café.” Preocupações pequenas que fazem toda diferença.
Ela foi assistir Luísa Souza lá recentemente. “Projeto lindo de Bossa Nova. E a qualidade do som… Uau. Dá pra trazer todos os graves, todos os percussionistas.” O palco é charmoso, e ela já tá imaginando a cenografia. “Tô sonhando acordada com esse dia.”
O show vai passear pelas músicas que ela já lançou, trazer Crochê e misturar com grandes sucessos da música brasileira. “Vai ser um show que mistura minhas músicas com grandes sucessos da música brasileira e músicas inéditas do meu disco.” É apresentação e prévia ao mesmo tempo. É celebração de tudo que construiu até aqui.
De diário íntimo a arte pública. De modelo misteriosa a cantora vulnerável. De separação dolorosa a Crochê feliz. Barbara Fialho está em plena transição — ou melhor, em pleno fluxo, somando todas as vidas, modelo, cantora, mãe, mulher e muito mais.
CRAZX foi o remédio. Crochê é a cura. O Blue Note é a celebração. E tudo isso convive junto, caótico e bonito. “Quero viver a vida leve”, ela diz. E está conseguindo. Uma música de cada vez. Um ponto de crochê de cada vez. Um passo de cada vez.
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