Barão Vermelho Encontro faz tudo ficar infinito com seu show em SP

Escrito em 24/05/2026
Igor Miranda (@igormirandasite)

Membros originais reunidos ofereceram apresentação deliciosamente longa com várias fases celebradas, ótima — mas curta — participação de Ney Matogrosso e homenagens diversas

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Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

“O público tem que aproveitar porque dessa vez acho que vai demorar para trabalharmos juntos.” Foi desta forma que Roberto Frejat definiu, em entrevista de 2013 ao Uol, sua última sequência de shows com o Barão Vermelho antes de a banda, uma das maiores e melhores do rock brasileiro, entrar em hiato. Ainda no primeiro semestre daquele ano, o grupo adormeceu para que seus integrantes trabalhassem em outros projetos — em especial o vocalista e guitarrista, que retomaria sua carreira solo, o foco principal naquele momento.

Àquela altura, as atividades do Barão já eram esporádicas. O grupo fundado em 1981 por dois então garotos empolgados com um show do Queen em São Paulo — o baterista Guto Goffi e o tecladista Maurício Barros — havia dado uma pausa em 2001. Voltou três anos depois para, novamente, adormecer em 2007. Uma reunião ocorreu em 2012, como forma de celebrar o 30º aniversário, durando até o período citado no parágrafo anterior.

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Em 2017, um ano após a morte do percussionista Peninha, Goffi e Barros decidiram seguir com o Barão sem Frejat, visto que este só queria retornar em 2021, para comemorar os 40 anos de grupo. Rodrigo Suricato assumiu o posto vago de forma competente e muito respeitosa com seus antecessores — Roberto e o icônico vocalista original Cazuza, ausente a partir de 1985 e falecido em 1990.

A versão da banda com Suricato segue — inclusive, tendo compromissos marcados para o segundo semestre —, mas Guto e Maurício se reuniram com Frejat e o baixista original Dé Palmeira, fora desde 1989 e ausente também das voltas do grupo em décadas anteriores, para uma nova série de shows, contemplando São Paulo no último sábado, 23, no estádio Nubank Parque (ex-Allianz Parque). O formato “Encontro”, realização da 30e, é o mesmo que juntou os sete Titãs, entre 2023 e 2024, para uma turnê que reacendeu o interesse do público por atrações nacionais nostálgicas. Como forma de engrossar o caldo, o Barão conta em algumas faixas com Ney Matogrosso, artista ligadíssimo ao Barão por ter regravado canções dela e de Cazuza.

Frejat durante show do Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Frejat durante show do Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Início forte

Com 30 minutos de atraso em relação ao horário anunciado — possivelmente devido a muitos fãs ainda estarem entrando no Nubank/Allianz Parque às 19h —, Frejat, Dé, Maurício e Guto subiram ao palco com a clássica “Maior Abandonado”. A partir daí, os sete músicos de apoio entraram de forma gradual: Fernando Magalhães (guitarra), Rafael Frejat (violão e guitarra; filho de Roberto Frejat) e Cesinha (percussão; irmão de Peninha) em “Pedra, Flor e Espinho”; o trio de metais Zé Carlos Bigorna (sax), Diogo Gomes (trompete) e Marlon Sette (trombone) em “Pense e Dance” e Jussara Lourenço (vocais de apoio) em “Tão Longe de Tudo”.

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Nesta primeira etapa do set, surpreendia observar o poderio do catálogo construído com Frejat nos vocais. Das oito primeiras canções, cinco vieram dos discos em que o guitarrista estava a cargo do microfone principal, enquanto três saíram em álbuns feitos ainda junto a Cazuza. Se faixas como o hit “Bete Balanço” e a bluesy “Ponto Fraco” pegam pelas letras muito bem escritas, músicas do porte de “Política Voz”, “Meus Bons Amigos” e a já citada “Pedra, Flor e Espinho” chamam atenção pela força melódica e dinâmicas instrumentais criativas. Tem pra todo gosto — e a tendência do público era gostar de tudo.

“Sabor Ney”

Após versões para “Tente Outra Vez” (Raul Seixas) e “O Tempo Não Para” (Cazuza), inicia-se a participação de Ney Matogrosso — infelizmente, mais curta em comparação ao show de estreia da turnê no Rio de Janeiro, com duas músicas a menos. Por aqui, além de dois números finais, rolaram apenas a encantadora “Poema” (composição de Cazuza gravada pelo lendário cantor), a despojada “Jardins da Babilônia” (Rita Lee & Tutti Frutti) e a ainda atual “Blues da Piedade” (Cazuza), sem “Ideologia” e “Exagerado”, ambas do frontman original morto em 1990.

Introduzido por Frejat com a frase “sem ele, acredito que nada teria acontecido [para o Barão]”, Ney subiu ao palco já ovacionado. Parecia até meio tímido, com seu agasalho de veludo e uma vibe menos animalesca do que a vista em seus espetáculos solo, mas não decepcionou em momento algum. Pelo contrário: apenas um cantor de seu porte seria capaz de deixar Frejat apenas na guitarra, sem o microfone principal.

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Poderia ter rolado mais Ney Matogrosso. Não há dúvidas. É um privilégio ouvir sua voz, tão bela e poderosa do alto de seus 84 anos. Todavia, a alteração pareceu ter ocorrido porque, segundo relatos — como o do jornalista Marcelo Vieira no site IgorMiranda.com.br —, a participação dele no Rio soou um pouco atrapalhada, não muito bem ensaiada. Se é para poupar este ícone da música brasileira, compreendemos.

Homenagens

É esperado que um show do Barão Vermelho tenha homenagens a nomes específicos, como, obviamente, Cazuza. No entanto, chamou atenção logo nas primeiras músicas a menção feita a Oswaldo Vecchione, baixista do Made in Brazil e lenda do rock brasileiro que estava presente na plateia. Seria apenas a primeira citação, direta ou indireta, a ícones nacionais.

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Das 31 canções executadas, 11 são versões de outros artistas: três de Cazuza e duas de Rita Lee, além de Angela Ro Ro (“Amor, Meu Grande Amor”), Erasmo Carlos (“Vem Quente Que eu Estou Fervendo”), Bezerra da Silva (“Malandragem Dá um Tempo”, com Maurício Barros no vocal), Legião Urbana (“Quando o Sol Bater Na Janela do Teu Quarto”) e a já citada “Poema”, gravada por Ney. Em uma leitura fria, pode soar esquisito, mas boa parte dessas composições estão integradas ao repertório do Barão há muito tempo. Várias delas pertencem à discografia oficial, seja por meio de registros em estúdio ou álbuns ao vivo. Além disso, cabe lembrar que Caju, Rita, Angela, Erasmo, Bezerra e Renato Russo já não estão mais entre nós.

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Os tributos se fizeram mais presentes após a participação inicial de Matogrosso. O blues melancólico “Down em Mim”, com uma das várias exibições de gala de Frejat na guitarra, antecedeu a emotiva “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, primeiro sucesso do grupo, executado somente pelo quarteto original junto a uma gravação em áudio e vídeo que permitiu ter Cazuza cantando ao lado dos colegas. “Por Você”, talvez o maior hit de toda a trajetória do Barão — repare nos números de reproduções no Spotify —, veio entre a lindíssima “Codinome Beija-Flor” e a mencionada “Amor, Meu Grande Amor”. Mais covers alternaram com as próprias — e quase lados B — “Torre de Babel”, “Declare Guerra”, “Cuidado” e “Não Me Acabo”, esta uma surpresa em relação ao setlist do Rio.

Surpresa no bis

Se o repertório “regulamentar” acabou em tom de festa com “Puro Êxtase”, o bis se iniciou em clima de luau, com voz, pandeiro e o quarteto original dividindo microfones em “Bilhetinho Azul”. Na sequência, a grande surpresa do set: uma versão para “Ovelha Negra”, de Rita Lee & Tutti Frutti, em tributo a Luiz Carlini, um dos maiores guitarristas da história da música brasileira, falecido no início deste mês aos 74 anos e retratado no telão. Seu solo histórico para a mencionada canção foi executado de modo “dobrado” por Fernando Magalhães e Frejat, que, com voz embargada, refletiu ao fim: “por isso é importante fazer as homenagens em vida”.

Cabe destacar que Magalhães, vinculado ao Barão Vermelho desde 1985 e membro oficial a partir de 1988, até foi apresentado ao público junto dos outros músicos de apoio durante “Malandragem Dá um Tempo”, mas esteve na parte traseira do palco, sem os devidos holofotes, em quase todo o show. Só esteve mais à frente durante o bis e, felizmente, ficou mais fácil assisti-lo no belo solo de “O Poeta Está Vivo”. Dá para entender o conceito de “membros originais em destaque”; ainda assim, ficou esquisito de se ver.

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Conforme previsto e executado no Rio, Ney Matogrosso retornou para as duas músicas finais. “Por Que a Gente é Assim?” ganhou uma versão toda cantada por ele, em tom adaptado, mais agudo. O mesmo foi feito na primeira parte do encerramento “Pro Dia Nascer Feliz” — após o primeiro refrão, Frejat reassume os vocais e uma tonalidade mais próxima da original é retomada. Duas horas e 20 minutos de som haviam se passado, mas uma das canções mais marcantes do processo de redemocratização do Brasil pós-ditadura trouxe a amarga sensação de “o show já acabou?”.

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Como Titãs Encontro, Barão Vermelho Encontro parece, mesmo, ser uma ocasião pontual. Conforme citado, a formação atual do grupo tem planos para o segundo semestre, talqualmente seu ex-vocalista e guitarrista. Seria lindo poder assistir mais vezes a uma apresentação que, pequenos dilemas à parte, agradou tanto seja em performance, escolhas de repertório, participação especial e estrutura, com um palco de dar inveja a muito artista gringo. Mas se é para esperar, que o próximo reencontro não seja para o 50º aniversário de banda. Ouviu, Frejat?

Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)
Barão Vermelho Encontro em São Paulo (Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos)

Barão Vermelho Encontro — repertório:

1. Maior Abandonado (somente Frejat, Dé, Maurício e Guto no palco)
2. Pedra, Flor e Espinho
3. Pense e Dance
4. Política Voz
5. Tão Longe de Tudo
6. Bete Balanço
7. Ponto Fraco
8. Meus Bons Amigos
9. Tente Outra Vez (original de Raul Seixas)
10. O Tempo Não Pára (original de Cazuza)
11. Poema (com Ney Matogrosso)
12. Jardins da Babilônia (original de Rita Lee, com Ney Matogrosso)
13. Blues da Piedade (original de Cazuza, com Ney Matogrosso)
14. Down em Mim (somente Frejat, Dé, Maurício e Guto no palco)
15. Todo Amor Que Houver Nessa Vida (somente Frejat, Dé, Maurício e Guto no palco; voz e imagem de Cazuza no telão)
16. Codinome Beija-Flor (original de Cazuza)
17. Por Você
18. Amor Meu Grande Amor (original de Angela Ro Ro)
19. Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (original de Erasmo Carlos)
20. Malandragem Dá Um Tempo (original de Bezerra da Silva, com Maurício Barros no vocal principal)
21. Torre de Babel
22. Declare Guerra
23. Cuidado
24. Não Me Acabo
25. Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto (original da Legião Urbana)
26. Puro Êxtase
Bis:
27. Bilhetinho Azul (somente Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco)
28. Ovelha Negra (original de Rita Lee, homenagem a Luiz Carlini)
29. O Poeta Está Vivo
30. Por Que a Gente é Assim? (com Ney Matogrosso)
31. Pro Dia Nascer Feliz (com Ney Matogrosso)

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